Entrevistas
Luis Nassif

Pergunta: você passou de analista econômico para a música, ou vice versa?
Luis Nassif: de músico para analista econômico! A música entrou na minha casa desde muito cedo. Minha mãe sempre foi apaixonada por música assim como meu pai. Nós morávamos em duas casas em Poços de Caldas sendo que na casa vizinha vivia a irmã do meu pai. O Leonardo Mesquita, montou um clube do violão lá em Poços, e o grande amigo nosso era o Isaías Sávio. Tenho uma foto minha, com mais ou menos um ano e meio, ao lado do filho do Sávio, o Nilo, no alpendre da casa do meu tio.
Claro que nessa idade eu ainda não tinha consciência de quem era ele, mas sempre que o Sávio ia para Poços, ele frequentava à nossa casa.
Tenho um primo, o Oscar, que é um grande economista. Hoje, é professor de Física em Minas e estudou com o Sávio.

Pergunta: podemos dizer que a música entrou em sua vida através do violão?
Luis Nassif: sim. Através desse meu tio. A música entrou lá em casa através de um violão Di Giorgio pretinho que ele tinha. O instrumento tinha um som fantástico e foi herdado posteriormente pelo meu primo Oscar.
Eu comecei a aprender inicialmente o piano, com mais ou menos 4 ou 5 anos, que era hábito no interior daquela época. Quando eu tinha uns 10 anos, fui para o cavaquinho, mas com afinação de bandolim. Tinha o "vô" doceiro, que tocava cavaquinho no regional do meu tio e fui aprender com ele.

Pergunta: e porque o cavaquinho?
Luis Nassif: porque na época, o Waldir Azevedo explodiu. Meu tio tinha sido muito amigo do Jacob do Bandolim, mas o Jacob não chegava em Poços. Chegavam os primeiros LPs do Waldir Azevedo. Ganhei um cavaquinho da minha mãe e comecei.

Pergunta: e o violão, quando chegou?
Luis Nassif: na adolescência, com mais ou menos 15 anos de idade, derivei para o violão, um pouco pós bossa-nova, na fase dos Festivais.

Pergunta: o seu estudo do violão foi mais técnico ou mais informal?
Luis Nassif: tecnicamente, eu estudei o piano: Hanon, Czerny, todos aqueles métodos. Em 1964, fui estudar em Santa Rita do Sapucaí e lá convivia com um amigo muito bom, de Poços, que tocava bossa-nova. O apelido dele era "Salário Mínimo" (ele era muito pequeninho), que além de bossa-nova, tocava muito choro. Morávamos na mesma república.
Quando voltei para Poços, comecei com o violão. Aprendi praticamente sozinho, pois já tinha noções de harmonia obtidas no cavaquinho, bandolim e piano. Então, foi aquela história: aprendi os acordes básicos, ouvia o Chico, Caetano, Vandré, Gilberto Gil, Sidnei Miller, que estavam começando na época, e tentava tirar a harmonia. Havia também o Juca Chaves, que era anterior, mas que também teve uma influência muito forte. Depois com o tempo, o desenvolvimento derivou para harmonias mais dissonantes com Edu Lobo, Milton Nascimento.

Pergunta: você participou de algum festival?
Luis Nassif: sim. O primeiro festival que eu entrei acabei ganhando, e com o dinheiro do prêmio eu comprei um Di Giorgio que tenho até hoje. É de 1968, e está conservadíssimo!
Participei de vários festivais. Em São Paulo ganhei a "Feira Permanente da Música Popular", feito pelo Fernando Faro, em 1969. Cada mês tinha uma eliminatória e aconteceria a final. A eliminatória do mês de julho, eu ganhei empatado com a Sueli Costa, que surgia na época. A finalíssima tinha umas duas ou três músicas do Jorge Ben ("Domingas" era uma), duas ou três do Paulinho da Viola ("Foi um rio que passou em minha vida" e "Papéis"), mais a da Sueli Costa e mais a minha. Isso era na TV Tupi, que faliu na época e não houve a final. Eu até brinco que empatei com eles...

Pergunta: você fazia mais a música, a letra ou as duas coisas?
Luis Nassif: fazia as duas coisas, mas quando tive parceiros, eram parceiros na composição das letras.

Pergunta: com qual música você ganhou em São Paulo?
Luis Nassif: essa música que ganhamos em São Paulo, chamava "Congresso Internacional do Medo", analisando a crise econômica da época. Embora eu não tivesse ainda radicado na Economia, a gente via aquela crise da estatização, durante o governo Castelo. Eu fiz a música e metade da letra; a outra metade foi um parceiro muito bom, o João Cléber, de Aguaí. Participei também de muitos outros festivais: Campinas, Volta Redonda, Foz do Iguaçu, São João do Pinhal, Casa Branca, etc.

Pergunta: qual outro festival você ganhou?
Luis Nassif: o segundo festival que eu ganhei foi em Casa Branca. Era um frevo cantado pelo Paulo Molem, cantor que nos anos 50 fez sucesso na Rádio Nacional, aos 12 ou 13 anos, cantando "O Pequeno Jornaleiro", ou coisa assim. Um dos poucos meninos que não tinha aquela voz chata (voz de menino geralmente é chata). Em Casa Branca, ele gravou um compacto com a nossa cantora, que era a Mônica mais o conjunto do Poly. Isso em 1969.

Pergunta: e qual instrumento você usava para compor?
Luis Nassif: para composição, eu utilizava basicamente o violão, e para solo, o bandolim. Utilizava o piano para composição, pois me sentia mais solto para compor.

Pergunta: sobre os seus artigos na "Folha de São Paulo", por exemplo, como desenvolveu todos os seus conhecimentos musicais?
Luis Nassif: comecei no jornalismo, na parte de música. Fui trabalhar na revista "Veja", como estagiário e me interessei por música e uma das primeiras matérias que fiz foi sobre o violão - sobre uma figura fantástica, praticamente ignorada hoje em dia, chamada José Lanzac, que era um violonista de São João da Boa Vista. O pessoal de Poços falava maravilhas dele. Ele tinha um método de flamenco. Corria a lenda em São João, que Américo Jacomino (o Canhoto), esteve em São João para tocar e quando isto ocorreu, foi chamado o Lanzac no palco e o Lanzac era melhor que o Jacomino. Eu achava que era conversa do interior. Quando o Lanzac morreu, em 1970, fiz sobre ele uma reportagem e tendo como fonte o professor Ronoel Simões e o maestro Isaias Sávio. Contei a história sobre a presença do Jacomino em São João. O Sávio me confirmou: claro que o Lanzac era melhor violonista! De 1920 a 1940, o Lanzac foi o maior violonista brasileiro e o único registro que se tem dele, são algumas gravações caseiras do professor Ronoel Simões. Ele era um corretor de seguros e não fez carreira.

Pergunta: e como você passou a analista econômico?
Luis Nassif: em 1974, eu seria o crítico oficial da "Veja", mas a crítica de música estava muito pobre, era muito politizada; como não se podia criticar o governo na política e na economia, usava-se a música. Então, se formava aquela panelinha: o cara podia ser medíocre, mas se ele fizesse, nas entrelinhas, uma crítica ao governo, dizia-se que ele era um gênio. Achei que aquilo era muito limitado e pensei: se é para combater o regime, vamos àquilo que conta: a Economia e a Política. Fui para a Economia, mas continuei acompanhando a Música.

Pergunta: fale-nos sobre a matéria que você fez sobre o violonista Aníbal Augusto Sardinha, o "Garoto".
Luis Nassif: em 1977, eu já estava na Economia mas escrevi para a revista "Veja", uma matéria que foi a primeira retomando o Garoto, por um motivo simples: no bar do Alemão, onde a gente tocava, tinha o Heraldo, corretor de imóveis, violonista mineiro amador, apaixonado pelo Garoto. Tinha o Nelsinho Risada, que tocava cavaquinho, com um retratinho do Garoto, de 1954. Aí, saiu um disco da Rádio Nacional, com gravações do Garoto, (feitas pelo Paulo Tapajós direto do radio nos anos 50). Então, eu fiz uma matéria longa, na "Veja", sobre o Garoto. O filho dele me ligou, dizendo que era a primeira pessoa que escrevia em muitas décadas sobre o pai dele. Logo depois, no "Jornal da Tarde", fiz uma página inteira sobre ele. Eu estava vendo nos arquivos do Instituto Moreira Sales todos os recortes do Tinhorão de 1970 até recentemente; as primeiras matérias que surgiram do Garoto, foram minhas na época e logo depois, duas moças me procuraram, elas leram a matéria da "Veja" e a FUNART fez um concurso - "Biografia do Garoto" e elas se interessaram pelo tema. Me procuraram e eu passei as dicas pra elas, do Heraldo, do Paulo Belinatti e elas ganharam o concurso.

Pergunta: e o Garoto como solista de bandolim?
Luis Nassif: quando o Jacob explodiu e fez sucesso nos anos 60, meu tio falava que havia uma grande disputa entre ele e o Garoto - do Garoto a gente sabia de coisas no cavaquinho e no violão. Um dia me deram uma gravação do Garoto tocando bandolim, era um choro chamado "Dinorah". Eu levei um susto! Porque todo aquele ferramental que o Jacob desenvolve no final dos anos 50, que foi quando o Jacob deu um grande salto a nível de um grande instrumentista, aquele Jacob dos últimos LP’s, todo aquele ferramental de recursos estava sintetizado naquela música "Dinorah" - o estilo do Jacob foi o Garoto que criou! Daí, fui ao Instituto Moreira Sales e coloquei no computador Garoto e bandolim - apareceram dez gravações dele no bandolim, de 1944 a 1948. O Jacob começou a gravar em 48. O Jacob está ali, a escola está ali. Inclusive algumas faixas que o Garoto gravou, o Jacob regravou tempos depois, copiando completamente o estilo Garoto. Com a digitalização dos arquivos vai ser uma revolução na pequisa musical, você vai lá tem tudo lá. Cronologicamente. Você joga lá e estabelece quem começou mesmo um estilo.

Pergunta: e o Garoto no cavaquinho?
Luis Nassif: você pega as gravações dele nos anos 40, no cavaquinho, é o Waldir Azevedo que começa a despontar nos anos 50! Ou seja, a escola de cavaquinho mais importante que o Brasil teve, é Waldir Azevedo, a escola de bandolim mais importante que o Brasil teve, que foi Jacob e a escola de violão - não digo a mais importante, porque temos João Pernambuco, Baden, etc. - mas foi o Garoto que deu!

Pergunta: como você situa o violão brasileiro nos seus diversos estilos?
Luis Nassif: a base de tudo, para mim, é João Pernambuco, Levino da Conceição, e também o Meira: estes no violão popular. Na parte erudita, o Isaias Sávio teve um papel muito grande. O João Pernambuco foi uma grande escola que teve seus seguidores em Dilermando Reis - aquele violão mais pulsante. No meio do caminho, entra o Garoto, com a influência do Django Reinhardt, com aquele swing e deriva para aquela harmonização dele. Para mim, o Baden é a síntese dos dois: o estilo vigoroso, aquele estilo pernambucano do choro do João Pernambuco, e faz a harmonia do Garoto. Nesta área popular, você pega os anos 60 - o salto do violão brasileiro, quando tinha Baden, Rosinha de Valença, Paulinho Nogueira, Turíbio Santos. Há também, o Natalino Moreira, dos Índios Tabajara. Eu lembrava deles mais na parte comercial de boleros, etc, até que ouvi uma gravação da "Valsa em Do# menor", de Chopin. Fiquei abismado! Foi um murro no queixo! Eles misturavam "Mamãe eu Quero", até Chopin. Tem choros deles muito bonitos também. Eles ainda não foram muito assimilados pela História do Violão Brasileiro. Nos anos 70, você tem a explosão do violão: você, o Macumbinha, os filhos do Baden, filhos do Isaías, com música erudita, popular, que foi um grande salto nos anos 70, com uma grande quantidade de violonistas. Há também o Barbosa Lima, que tenho um disco que ganhei de presente do Sávio.

Pergunta: que conselho você daria aos internautas do Clube Di Giorgio, que são aspirantes ao violão ou mesmo violonistas amadores. O que você passaria das suas experiências a esses futuros artistas?
Luis Nassif: para se dedicar à Música, tem que ter um desprendimento muito grande, que eu não tive, por exemplo. A Música sempre foi importante para mim, mas escolhi outra profissão. Quem quiser viver da Música, precisa de muitas horas de estudo. O conselho que eu daria é um pouco do conselho que eu daria ao jornalista, ao economista: não se atenha a uma só escola; você tem que beber em todas as fontes. Sempre há um preconceito em relação à música pop. O Armandinho pegou o pop, juntou com o choro e revolucionou o bandolim. O Pixinguinha, lá atrás, pegou o jazz, juntou com o sincopado, era ele, o Zequinha de Abreu, você pega o "Tico-tico no Fubá", o choro "1x0", feito em 1917, 1918! A técnica é fundamental. Fuja do malabarismo, esse negócio que atrapalha muito o violão brasileiro, esse malabarismo que tomou conta e comprometeu muitos violonistas. Alguns dos maiores talentos do violão brasileiro foram comprometidos com essa mania do "show". O Yamandu é um violonista fantástico, mas esse negócio do "show", fuja do "show"; o "show" é limitativo. Há um outro rapazinho, jovem ainda, sai disparando, "sujando" tudo. Se quer tocar rápido, ouça os Índios Tabajara tocando música erudita. Por aí, você vai ver a rapidez, mas a "limpeza" é fundamental. Esse estilo "sujo", rasqueado, pode render aplausos um ano ou dois, mas não é isso que consagra o violonista. Então, tem que casar o conhecimento das diversas linhas: você pega o "blues", ele te dá elementos relevantes para compor um estilo. O choro é fundamental. Eu ouvi o Canhoto da Paraíba, Garoto, João Pernambuco, Baden. Mas se você ouve, por exemplo, só o Baden, a tendência é você ser um Baden piorado. Por isso é importante essa mescla de estilos, mesmo para quem está na música erudita, também é importante. Estava ouvindo o "Duo Assad" numa apresentação extraordinária com a família Assad. Eles misturavam a formação deles do choro, a formação erudita. O Sérgio criou arranjos para acompanhamento do choro, que foi uma revolução, com o agudo do cavaquinho juntamente com o contraponto do Odair e o Sérgio faz também a baixaria e fica uma coisa inacreditável. Mas isso por quê? Porque você tem que ter a formação erudita, tem que ter a técnica, mas tem que ter abertura pra todo esse universo de sons que já existe, antigo e contemporâneo.
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