Entrevistas
Toquinho

Pergunta: como foi seu início com o violão?
Toquinho: o início da minha carreira foi marcado pela bossa nova, quando a classe média começou a prestar atenção no violão através das canções de João Gilberto e também do Juca Chaves que, apesar de não pertencer à bossa, cooperou em muito para a ascensão do instrumento.

Pergunta: como o violão era visto nesta época?
Toquinho: existiam apenas duas percepções em relação ao violão: ou era um instrumento de solista, algo afastado do lado popular, ou tratava-se de um instrumento de boêmios (o violão das serenatas, da boemia). A bossa nova trouxe para os compositores da minha geração uma idéia diferente, tanto que muitos compositores são violonistas: João Bosco, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e muitos outros. Todos começaram por causa do João Gilberto.

Pergunta: por que você começou a estudar o violão?
Toquinho: todos estudavam o instrumento. Então, aos 12 anos comecei a praticar e tive uma certa facilidade em relação aos outros alunos. No início tinha uma professora precária, que só tocava aquela canção “sereno, eu caio..."

Pergunta: de que forma você se desenvolveu mais?
Toquinho: passei a escutar os discos do Carlos Lyra, Tom Jobim e Sérgio Ricardo, que tinham harmonias mais complexas. Neste período, eu queria tirar os acordes e tinha uma certa dificuldade, porque aprendia somente os acordes "puros", as seqüências de DoM, Lam, Rem e Sol7. Foi quando vi o Paulinho Nogueira em um programa de televisão. Cheguei para os meus pais e disse: “quero esse violonista como professor”. A partir daí passei a estudar com ele.

Pergunta: e como foi essa experiência com o Paulinho?
Toquinho: muito boa! Ele até me escondia dos outros alunos, que já estudavam há mais tempo, pois comecei a tocar os solos facilmente. Eu tinha um raciocínio muito rápido para a música e aprendia coisas que os demais alunos demoravam mais de um ano. Evoluí bastante e comecei a tocar parecido com ele.

Pergunta: de que forma você modificou este estilo?
Toquinho: passei a ouvir bastante Baden Powell, Luís Bonfá, Antônio Barbosa Lima e a me distanciar musicalmente do Paulinho.

Pergunta: você já visualisava o violão como um futuro profissional?
Toquinho: eu sempre tive a vontade de seguir uma carreira artística, nunca enxerguei o violão como passatempo. Passei a estudar compulsivamente, como fazem todos os violonistas solistas. Tocava violão dentro do banheiro, dormia com o violão embaixo da cama e quando acordava a primeira coisa que fazia era pegar o violão e tentava tirar os solos de um violonista ou de outro.

Pergunta: por que você teve vontade de ser solista?
Toquinho: porque tinha, na época, uma dificuldade muito grande de cantar, então eu achava que solando poderia me comunicar melhor. Essa vontade também surgiu ao ouvir os violonistas solarem, principalmente o Paulinho, o Baden Powel, o Bonfá e o Barbosa Lima.

Pergunta: e como você se aperfeiçoou tecnicamente?
Toquinho: fui estudar com o Isaías Sávio e o Oscar Castro Neves, que era um grande arranjador e tocava muito bem o violão. Conheci o Baden Powell e ficamos amigos de tocar juntos por horas e horas. Mas o que gostava de fazer eram coisas improvisadas do jazz brasileiro. Sempre admirei um som limpo.

Pergunta: no início da sua carreira você tocava com quais músicos?
Toquinho: quando tinha uns 18 ou 19 anos começou a surgir uma nova geração na música nacional. Apareceu o Chico Buarque, Taiguara, o Bossa-Jazz Trio, a Gal Costa, o Caetano Veloso, o Gilberto Gil e a Maria Bethânia. Eu era o violonista do grupo e a gente fazia show de amadores.

Pergunta: qual foi o seu primeiro disco?
Toquinho: foi como solista de violão mesmo, gravei um pouco de clássico e popular.

Pergunta: por que você passou a compor?
Toquinho: porque senti que o violão comunicava até um certo ponto e a composição não. A composição tinha asas internacionais, era um modo mais fácil de romper fronteiras e sair do País. Com a composição eu ficava na vida das pessoas diariamente e sendo apenas um solista você permanece no limite da apresentação. Por exemplo: quando acaba o concerto de um violonista, acaba tudo. Uma música não, quando acaba a apresentação a música permanece.

Pergunta: isso afetou o seu lado solista?
Toquinho: não, nos shows sempre solo em algum momento. O violão abriu caminhos de uma forma fantástica; ao mesmo tempo que eu mostrava minhas canções, tinha uma hora que parava e falava: " agora eu vou tocar violão" e sempre é a parte mais aplaudida do show. Então a minha divisão como compositor e como solista foi uma coisa muito racional, foi muito estruturada na minha carreira.

Pergunta: como está o seu trabalho profissional atualmente?
Toquinho: tenho uma diversificação de trabalho muito grande: atuo como solista, compositor, intérprete e, às vezes, acompanho outros artistas. Durante a minha carreira abri muitos caminhos profissionais. Por exemplo: acabei de assinar um contrato com o Corinthians para uma propaganda da rede Columbus (patrocinadora do clube). Enfim, o violão sempre foi a base da minha vida musical.

Pergunta: que conselho você daria para os iniciantes do violão?
Toquinho: escutem todos os violonistas com muita atenção, tanto faz se um solista ou o sujeito que acompanha outro músico. Não subestimem ninguém, pois sempre aprenderão algo com estes profissionais. Outra dica é: estudem sempre. Dominando a parte técnica vocês tocarão de uma maneira mais livre. Procurem tocar qualquer tipo de música, desde o clássico até o flamenco: os discos do Baden, o estilo do Paulinho Nogueira, os acordes do Luís Bonfá, Barbosa Lima, ouçam todo mundo! Cada um tem um universo dentro de si. Desaconselho o autodidatismo, o aluno tem que estudar com uma pessoa que sabe mesmo. Desta maneira encurta os caminhos, percebe os atalhos do violão, os caminhos harmônicos, etc. Ser autodidata é um caminho longo que eu aplaudo, mas não aconselho. Procure bons mestres, que tenham uma visão ampla de música e estudem com mais professores, um que lhe dê uma coisa, outro que lhe dê outra - se você tiver disposição, tempo e um pouco de dinheiro. Este me parece ser o caminho mais aconselhável para uma pessoa que quer aprender o instrumento de uma maneira ampla (foi o meu, pelo menos).
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