Fabio ZanonFábio Zanon começou seus estudos de violão aos oito anos por influência do pai. Aos treze, diz que se converteu totalmente ao violão por causa do professor Antônio Guedes. Após adquirir técnica apurada, ganhou dois importantes concursos internacionais, o Tarrega, na Espanha e o GFM, nos Estados Unidos. Conheça nesta entrevista um pouco mais sobre a carreira e os planos de Fábio, que atualmente apresenta uma série de programas sobre violão na rádio Cultura FM, além de lecionar em universidades e estar com sua agenda lotada de apresentações.
Pergunta: Quando você começou a tocar violão?
Fábio Zanon: Meu pai tocava violão e gostava de choro, seresta etc. Ele tocava por música, mas tinha uma técnica totalmente intuitiva. Comecei estudando com ele aos 8 ou 9 anos. Depois estudei, em Jundiaí, com o professor Antônio Guedes, a partir dos 13 anos. O Guedes é responsável pela minha conversão definitiva ao violão.
Pergunta: E quando tomou gosto pelo violão clássico?
Fábio Zanon: Eu nunca tive interesse real por outra coisa. Minha primeira lembrança musical é ópera, e desde muito antes de estudar violão a música clássica era meu maior interesse. Meu trajeto é o inverso da maioria dos estudantes. Nunca quis tocar por cifras, e só topei que meu pai me ensinasse violão quando me dei conta de que dava para tocar música clássica com ele. Gosto da música instrumental brasileira, mas nunca tive muito interesse em tocar outros gêneros a sério. Não que eu não goste ou respeite, mas é inclinação pessoal, mesmo; a música clássica me completa, os outros gêneros aparecem só em certos momentos.
Pergunta: Seu apuro acadêmico veio muito cedo? E como você conduziu seus estudos de violão? Teoria, harmonia...
Fábio Zanon: Mais ou menos. Eu só comecei a estudar violão a sério aos 13 anos, o que já é meio tarde. O professor Guedes supriu minhas necessidades por um certo tempo. Depois disso, entrei numa classe de teoria, também em Jundiaí, com o professor Sílvio Ferraz, que hoje é professor da pós-graduação em composição na Unicamp. O Sílvio é um grande compositor e professor, e aprendi muito com ele. Ele abreviou a distância entre ouvir, cantar, tocar e escrever. Aos 16 ou 17 anos, eu escrevia música como quem escreve cartas. Já meu conhecimento de história, estética e contexto musical é uma inclinação pessoal. Eu adoro ler, e ler sobre música é um prazer redobrado. Estudar harmonia é como fazer palavras cruzadas; contraponto é quase um joguinho de computador.
Pergunta: Você ficou conhecido por ganhar, em quase um mês, dois importantes concursos internacionais. A que você atribui esse feito, e como foi a experiência?
Fábio Zanon: Eu já não participava de concursos fazia alguns anos, mas em 1996 eu completei 30 anos e fiquei preocupado, porque este é o limite de idade para a maioria dos concursos e era uma porta que se fecharia se eu deixasse passar. Então preparei um programa meticulosamente; como já não era criança, tinha segurança de que tudo estava musicalmente aceitável. Foi uma situação tensa como qualquer concurso, mas eu estava tranqüilo, bem preparado e a vitória foi até natural. Lembro que no concurso Tarrega eu passei a noite antes da final jogando bilhar, fui até dormir tarde, mas como tudo na Espanha acontece tarde, no dia seguinte fiquei bem disposto. Realmente eu estava com a segurança de quem se preparou direito. Depois do Tarrega, pensei até em desistir do GFA nos EUA, porque eu não tinha preparado a peça de confronto, e fiquei com medo de não chegar à final. Mas fui assim mesmo; nem sempre os outros concorrentes estão muito preparados... Mas ainda assim foi um concurso difícil. Três dos finalistas eram ex-vencedores do concurso Tarrega, foi um confronto entre gente muito experiente. Muito do concurso é sorte, depende do perfil dos outros candidatos, do programa que se escolhe etc., mas acho que meu êxito se deve ao fato de que eu consegui tocar com solidez técnica e uma concepção musical consistente sem perder a exuberância, o que não é exatamente o que se escuta em concursos hoje em dia. Eu sou contra concursos, mas naquele momento soube como me beneficiar com eles. Hoje em dia eu evito até participar como jurado.
Pergunta: Você participa de diversos festivais mundo afora. Tocar no exterior facilita a carreira de um concertista?
Fábio Zanon: Não é que facilita. Na música clássica, ou a carreira é internacional ou não é uma carreira de concertista. É a natureza da profissão. Normalmente, quem circunscreve sua carreira a somente um país divide seu tempo entre os concertos, o ensino e outras atividades correlatas, o que também pode ser muito gratificante. Eu vivo exclusivamente de tocar, não é melhor nem pior, é só outra profissão, que te coloca em evidência porque a exigência por qualidade é brutal quando se está no centro das atenções. É uma profissão comparável à de um toureiro ou de um piloto de fórmula 1.
Pergunta: Você é professor em universidades na Europa. O público é muito diferente de anos atrás, quando você estava na Real Academia de Música de Londres? Ainda há interesse dos jovens pelo violão clássico?
Fábio Zanon: Eu não tenho nenhuma posição fixa de ensino, mas sou convidado para dar cursos no mundo todo. No ano que vem farei residências na Real Academia de Música de Estocolmo e na Universidade do Colorado, em Denver, mas não tenho nenhum vínculo com nenhuma instituição. Eu acho que o interesse dos estudantes é uma coisa constante desde os anos 60. Certamente o nível médio é muito mais alto do que quando eu comecei, e quando eu comecei aqui em São Paulo o nível já era alto. O que mudou é que, agora, como o acesso ao conhecimento ficou mais fácil, o pessoal mais novo parece ser menos curioso, apesar de ter uma base técnica mais segura. Eu acho que o perfil do público mudou um pouco, mas é difícil julgar, porque comecei a tocar profissionalmente em 1982. O violão parece haver encontrado uma saída em festivais de violão, sociedades de violão etc., como uma alternativa à pequena participação no universo da música clássica sinfônica. Isso afeta vários aspectos do nosso trabalho – preparo técnico, escolha de repertório, administração da carreira etc.
Pergunta: Seu último CD, com Sonatas de Scarlatti, difere bastante de seus outros trabalhos, como a gravação do repertório de Villa-Lobos e o Guitar Recital. Como você encara essa diversificação de repertório?
Fábio Zanon: Eu sempre toquei de tudo. O violão não é que nem ópera, onde a voz de um cantor só cai bem em um número limitado de papéis. Eventualmente gravarei outras coisas, renascimento, música espanhola etc., mas foi o momento certo de gravar Scarlatti e fiquei contente com o resultado. Daria pra fazer mais dois CDs, mas daí eu teria de ficar um ano só tocando Scarlatti, e não é bem o que o público espera...
Pergunta: Fale-nos um pouco sobre a série de programas na Cultura FM, tanto da feita no ano passado (A arte do violão) como a atual (Violão, com Fabio Zanon). Como surgiu a oportunidade?
Fábio Zanon: Eu morei exclusivamente na Inglaterra entre 1990 e 2002. Toda vez que vinha ao Brasil dava alguma entrevista na Cultura e eles sugeriam que eu fizesse algo maior, mas por causa da distância ficava um pouco complicado. Quando voltei a residir no Brasil em tempo parcial, ficou mais fácil, porque dá tempo de escrever os programas e ir até lá semanalmente gravar, não tem de fazer um pacotão. Eles me deram carta branca para falar o que quisesse sobre violão. Todo mundo que não é do ramo, músico profissional ou não, sempre me perguntou o que se deve ouvir para conhecer o violão. Quem são os intérpretes mais relevantes, qual é o repertório, o que faz com que cada um soe de um jeito diferente. “A Arte do Violão” foi uma resposta a esta pergunta.
Pergunta: E o que está achando do resultado final?
Fábio Zanon: A série foi um grande sucesso, foi reprisada três vezes, adotada como material de ensino, cópias piratas ainda circulam pela internet. Quando mudou a direção da rádio, eles pediram que continuasse na grade fixa da programação. Eu não tenho vocação para burocrata. Jamais ficaria tocando discos quaisquer, lendo o texto do encarte no ar. Então fiz uma série de 13 programas sobre o violão na Espanha no século XX e agora fui atrás de um assunto que conheço mal, que é o violão brasileiro. Está sendo muito trabalhoso, será uma série de mais de 50 programas, as gravações são difíceis de conseguir e de qualidade muito desigual, mas acho que é um projeto importante como um inventário do patrimônio do violão brasileiro. E, claro, para mim também, porque terei uma idéia mais clara de quais são as lacunas no meu próprio conhecimento do repertório. Nem toda a música é boa ou adequada para se tocar em concerto, mas o violão brasileiro tem um anedotário infinito, e estou me divertindo imensamente com a pesquisa. O programa “Violão com Fábio Zanon” é ouvido fora do Brasil via internet, ainda mais agora em que o tema é música brasileira. Meia hora depois de ir ao ar, já está disponível para se baixar na internet. Tudo pirata, mas sinceramente não me importo, porque ninguém visa lucro, é só circulação de informação, neste caso. Tenho certeza que muitos CDs são vendidos depois que as pessoas ouvem as músicas no meu programa.
Pergunta: Como você vê o papel da internet na música clássica, atualmente?
Fábio Zanon: Estes mp3 são piratas. Não é meu site pessoal, aliás eu nem tenho site. Foi tudo feito por gente que queria de fato deixar o programa disponível para os estudantes e aficionados, já que a Radio Cultura não tem um esquema que permita que eles fiquem disponíveis depois de irem ao ar. Lançar isso comercialmente seria inviável, porque os direitos autorais seriam um problema impossível de contornar. A série “A arte do Violão” completou neste mês 10 mil downloads. Isso é um número significativo até para a música popular mais rasteira. Para um programa de música clássica, é um número excepcional, afinal não é só uma faixa de 4 minutos, é um programa inteiro, de uma hora de duração. O upgrade na minha carreira coincidiu com o advento da internet, por volta de 1996, 97. Eu tocaria muito menos, e teria muito mais trabalho para organizar meu calendário, sem ela. A internet leva sua reputação aonde você não chega. Para a música clássica, a internet só traz vantagens, mesmo com a pirataria.
Pergunta: Atualmente, fora o programa de rádio, quais são suas atividades? Alguma apresentação marcada no Brasil para 2006?
Fábio Zanon: Tocar, tocar, tocar. O programa de rádio ocupa somente uma tarde por semana. Estou desenvolvendo outros projetos para TV também, vamos ver se dá certo em 2007. Meu calendário é totalmente insano; exige que eu mantenha um repertório completamente fora da norma. Entre 2005 e 2007 estarei tocando quase 20 concertos diferentes para violão e orquestra, vários deles em estréia mundial. Normalmente um violonista não toca tudo isso nem numa vida inteira de trabalho. Segovia fez sua carreira só com 4! Além disso vou gravar um disco com a soprano Claudia Riccitelli, devo gravar mais um CD com flauta e estou desenvolvendo um outro projeto com uma cantora brasileira de jazz que mora em Londres, Mônica Vasconcelos. E neste meio tempo tenho de aperfeiçoar meu repertório solo para concertos e para eventuais gravações. Além dos 12 estudos de Mignone, neste ano tenho a intenção de gravar a integral para violão solo do Radamés Gnattali, o que é extremamente trabalhoso. Eu já me apresentei algumas vezes no Brasil neste ano. Daqui por diante, tocarei no CCBB (solo) e no Auditório Ibirapuera (com o Duo Assad e o Yamandu) em maio. Tocarei com orquestra em Santo André e Campinas, tenho recitais também em Goiânia, Belo Horizonte, Uberlândia, Jundiaí e Rio. Tudo isso até agosto, depois disso ainda não sei. Devo estrear, também em São Paulo, os concertos do Harry Crowl e do Francis Hime, em 2007.
Pergunta: Para finalizar, que conselhos você daria para que os iniciantes e aspirantes a uma carreira musical ou mesmo aos que querem se desenvolver como violonistas amadores?
Fábio Zanon: Não sei se tenho o talento para dar conselhos generalizados. Acho que o conselho é uma coisa mais proveitosa quando vem de uma pessoa em quem confiamos, que nos avalia com severidade e amizade ao mesmo tempo, em particular, sem fazer alarde da própria sabedoria. Isso posto, a maior dificuldade na profissão de músico é encontrar equilíbrio, em todos os aspectos. Para os estudantes, especialmente os amadores, o conselho que eu daria é manter constância no trabalho, e desenvolver a prática da leitura, porque é ela que nos abre as portas para o conhecimento do repertório, que é o nosso maior patrimônio e nossa maior alegria.