Ulisses RochaPergunta: você tem um estilo diferente nas concepções musicais e na forma de tocar. Como chegou a isso?
Ulisses Rocha: o estudo da guitarra influenciou profundamente a minha música.
Iniciei tocando violão clássico e dois anos mais tarde migrei para a guitarra. Tinha aulas com o Antônio Manzione, em São Paulo. Acontece que ele se mudou para Santos. Então resolvi não procurar outro mestre, pois tinha um apego muito forte em relação ao Mazione. Comecei a tocar de ouvido e passei anos fazendo isso. Bastante tempo depois fui descobrir que esta técnica fazia um bem enorme ao meu aprendizado.
Pergunta: o que esta experiência com a guitarra trouxe para sua carreira?
Ulisses Rocha: transportei os ensinamentos da guitarra para o violão. A única diferença é que ao invés da palheta utilizava os dedos. Mas no começo era apenas uma brincadeira. Daí, sem perceber foi nascendo uma forma diferente de encarar o violão. E isso foi se potencializando, até que chegou um ponto que eu tinha um estilo de tocar particular, impregnado de uma série de informações que não vinham do violão tradicional. Esta é a razão pela qual o meu estilo ficou um pouco diferente.
Pergunta: você ainda mantém esse processo?
Ulisses Rocha: hoje em dia continuo experimentando novas possibilidades, não só em relação ao rock, pois sou um músico meio inquieto. Quando começo a aprender uma determinada linguagem já canso e quero partir pra outra coisa. Ultimamente tenho me dedicado a questão da eletrônica. A minha proposta é levar o violão para outras fronteiras.
Pergunta: na parte técnica, como analisa a sua formação?
Ulisses Rocha: é difícil explicar. Diria que a base é a música clássica, mas sofro influência do flamenco e do choro. Por exemplo, a escola moderna dá prioridade ao toque sem apoio, algo mais livre. No entanto, gosto de apoiar o polegar, o que já é uma influência do flamenco. Diria que a minha formação é erudita, com algumas características do popular.
Pergunta: você ainda sente a influência do violão clássico?
Ulisses Rocha: sim. Não consigo desconectar-me do violão clássico. No entanto, não possuo um domínio estilístico tão profundo quanto o violonista profissional. Por exemplo: não saberia como interpretar perfeitamente uma peça de Bach dentro dos padrões do violão erudito. Mas a estrutura técnica para fazer isso, tenho. É só uma questão de ajustar o foco do trabalho. Portanto, embora não me considere um violonista erudito, tenho muitos pontos em comum com esta escola.
Pergunta: você compôs uma série de Estudos para violão?
Ulisses Rocha: sim. Compus uma série de "Dez Estudos para Violão". Um trabalho direcionado para o mundo do violão erudito.
Pergunta: como surgiu a composição em sua vida?
Ulisses Rocha: na verdade, comecei a compor sobre a influência de um amigo de infância, o Nico Rezende. Eu tocava o violão, mas não tinha o domínio musical. Já o Nico sabia tocar, harmonizar, era algo impressionante o seu conhecimento. Como convivíamos muito, aquilo passou a me “incomodar” e gerou uma competitividade sadia. Foi por isso que decidi compor. Não tinha uma regra ou técnica, era tentativa e erro. Neste momento, o hábito de tirar música de ouvido tornou-se muito importante, pois desenvolveu um senso natural. Não teve um processo técnico por trás disso.
Pergunta: e chegou a estudar composição numa Faculdade de Música?
Ulisses Rocha: durante a Faculdade de Música aprendi apenas a parte teórica da composição, pois já tinha visto tudo aquilo na prática. Em função disto, posteriormente fui dispensado das aulas.
Pergunta: atualmente você também se dedica a dar aulas de violão?
Ulisses Rocha: sim, sempre dei aulas. Logo que deixei a Faculdade de Agronomia, e voltei para São Paulo, fiz um pacto com meu pai, preocupado com o fato de ter um filho músico: comecei a dar aulas e tocar à noite.
Descobri a vocação de professor e aos poucos os alunos começaram a me procurar. Isso tornou-se uma forma de vida que continuo seguindo até hoje. Nos últimos 13 anos tenho me dedicado à Universidade de Campinas (a UNICAMP), onde leciono atualmente. Então, ministrar aulas é uma coisa que vai me acompanhar para o resto da vida. Não tenho como me desvencilhar disso, é pura vocação.
Pergunta: além das aulas e apresentações, que outra atividade está exercendo?
Ulisses Rocha: faço também coordenações de eventos ligados ao violão, como cursos e coisas do gênero. Mas são atividades esporádicas. Fora isso, também gravo meus trabalhos e este ano lanço o nono CD.
Pergunta: qual conselho você daria aos estudantes de violão?
Ulisses Rocha: o importante é conseguir um bom professor. Aprender violão sozinho, em pouco tempo, é a coisa mais errada que existe. Você deve estudar com um bom professor e curtir o aprendizado. Todo mundo que deseja aprender em pouco tempo e sozinho não sai do lugar.
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