Entrevistas
João T. do Amaral

Pergunta: como radialista, há quanto tempo está no ar o seu programa "Chorinho Brasil", na Rede Boa Nova de Rádio?
João Tomas do Amaral: já está ar há quase dez anos. Começamos aqui na Rede Boa Nova de Rádio, em 16 de maio de 1995.

Pergunta: o que fez você escolher o choro como o seu principal estilo de música para divulgar?
João Tomas do Amaral: a história é engraçada. Quando eu tinha uns dez ou onze anos de idade, lá no bairro onde eu moro, a Vila Gustavo, tinha um sistema de alto-falantes e na época que eu ia para a escola, esse sistema de alto-falantes veiculava propagandas, tocava músicas e ouvia-se músicas sertanejas e instrumentais. Em geral, eram obras de Dilermando Reis, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim. As filhas do dono desse sistema de alto-falantes, que era o Faísca, elas estudavam comigo e a minha passagem diária por ali era constante. Eu ouvia e tomava contato com aquelas músicas. Comecei a gostar daquelas músicas. Eu fazia duas coisas na época: guardava o troco do pão, pois ia à padaria 3 ou 4 vezes por dia; o dono da padaria, o seu Alberto, me perguntava: " - mas quantas pessoas moram na sua casa?" - Eu respondia: " - Eu, meu pai e minha mãe". " - Mas por que você compra tanto pão? " É que minha mãe me dava o dinheiro e o troco do pão ficava comigo. E com esse troco eu fazia duas coisas: pagava o recibo do time de futebol e quando ia com ela até o centro da cidade, passava na Ladeira Porto Geral, onde tinha umas lojas de discos (era tudo bandejão). Comecei a perguntar quem eram os instrumentistas e comecei a comprar discos do Pixinguinha, do Jacob do Bandolim, do Waldir Azevedo, Dilermando Reis e não contava pra ninguém. Só meu pai e minha mãe sabiam que eu guardava esses discos. Meu pai achava engraçado, porque ele me falava: " - Poxa, essas músicas são todas iguais. É um tal de plin, plin, plin pra cá, plin, plin, plin pra lá". Ele não estava acostumado com aquele som, por causa da formação musical dele; ele tocava gaita de boca, mas eram músicas portuguesas.

Pergunta: então você estava começando o seu acervo musical?
João Tomas do Amaral: exatamente. Comecei a guardar esses discos e nunca contei pra ninguém. Fui guardando, guardando e hoje devo ter acima dos treze mil discos.

Pergunta: todos esses discos são exclusivamente de choro?
João Tomas do Amaral: todos tendo alguma coisa a ver com choro. Às vezes tem discos que só tem um choro, mas eu vou lá e compro porque tem aquele choro que eu quero ouvir como é o arranjo. Às vezes, é um disco que não é de regional, é de orquestra, mas se tem um choro entre as faixas, eu compro. Tenho discos de 78 rotações, gravações em fita, alguns compactos, discos de 10 polegadas, discos de 12 polegadas, os LPs maiores e tenho CDs, agora da fase digital. Não tenho placas metálicas. Tenho até alguns discos originais da Odeon, muito raros, do Patápio Silva, que eram de 78 rotações, porém, maiores. Então, a música sempre me acompanhou. Meu tio, meu pai, eram comerciantes e eu tenho o meu tio Manoel, que hoje está em Portugal, ele tinha um bar. O pessoal ficava ali até altas horas tomando umas e outras e tocando violão. Só que o pessoal foi fazendo dívidas, fazendo dívidas e o violão ficou lá para assegurar o pagamento do crédito. Até que um dia, estipularam que finalmente o violão pagaria a conta que eles tinham e o violão ficou para o meu tio e ele me deu o instrumento.

Pergunta: e você aprendeu a tocar o violão?
João Tomas do Amaral: eu ia olhando os outros tocarem e depois, na manhã seguinte, procurava tocar. Gostava de violão. Fora isso, tinha também um grupo de amigos, da família do seu Hermínio e todos eles eram músicos e cantores sertanejos. Estando sempre perto da música, acabei me direcionando para o choro.

Pergunta: e as suas pesquisas sobre o choro, como se iniciaram?
João Tomas do Amaral: comecei a focar o meu estudo sobre o choro, até como forma de leitura, de pesquisas, no sentido de anotar, coletar informações. Fui anotando muitas coisas. Tenho documentos importantes, dessa fase de coleta. Tudo veio muito cedo, mas depois, quando tomei consciência maior sobre a pesquisa propriamente dita, como uma coisa organizada, fui guardando mais coisas. Há uma pesquisa que estamos fazendo sobre o Amador Pinho, que foi um bandolinista aqui em São Paulo e que é um elo perdido da música paulistana. Os dados sobre ele, mostrados na Enciclopédia da Música Brasileira, são dados errados, como também, um disco do Jacob do Bandolim, que saiu pelo selo MEC, diz que ele é espanhol e eu descobri que ele é paulista. As datas de nascimento e falecimento estão erradas. Achei, levantando, anotando e guardando tudo isso. Essa minha ligação com a música, se deu por estar próximo de pessoas que cultivavam a música, mas acabei pegando a vertente do choro. Passei pela Jovem Guarda e não tenho um disco da Jovem Guarda; o que tenho, é que ganhei de outra pessoa, mas nunca comprei. Discos relativos à bossa-nova, também tenho só um ou outro que tem alguma citação de choro, como a Nara Leão que compôs a letra, gravou choros como "Apanhei-te Cavaquinho", "Odeon" (Nazareth).

Pergunta: fale-nos sobre o violão e o choro.
João Tomas do Amaral: no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o violão era considerado como um instrumento vadio. As pessoas que tocavam ou portavam um violão eram discriminadas pela sociedade da época, que os consideravam malandros ou vagabundos. A trajetória do violão, na música brasileira, contempla várias histórias que vão da sua marginalidade até chegar às grandes salas de concerto. Atualmente o violão freqüenta sem qualquer discriminação, o popular e o erudito. A versatilidade do violão faz com que ele tenha facilidade de adaptação aos mais variados gêneros como a modinha, a seresta, o samba, a bossa-nova, entre tantos outros. Mas é no choro que o violão tem encontrado expressivo destaque, estando fortemente integrado no movimento do choro. A criatividade do violonista brasileiro se faz notar até na alteração do instrumento: o tradicional violão de 6 cordas, aqui no Brasil, recebeu mais uma corda grave, em geral, afinada em DO, dando origem ao violão de 7 cordas, instrumento tipicamente brasileiro.

Pergunta: quais os violonistas que você apresenta ou apresentou e que estão ligados ao choro?
João Tomas do Amaral: o programa "Chorinho Brasil" é um programa temático. Quando não tenho convidados ou um grupo para tocar, é rara a oportunidade que não pego uma data, ou de falecimento ou de nascimento de um grande compositor, ou mesmo algum evento importante, para nós fixarmos algumas pessoas e fazermos algum programa temático, contando a história, mostrando interpretações, não só da pessoa, que às vezes ela tem, às vezes não tem e até interpretações com as mais variadas formações. Fizemos programas falando do Quincas Laranjeira, do Meira, Villa Lobos, todo lado erudito dele que se remonta à questão do violão; ele saia de casa, perseguia os chorões para acompanhar. Dilermando Reis, Levino da Conceição, Garoto, João Pernambuco, Laurindo de Almeida, Luiz Bonfá. Também violonistas atuais que vêm até o programa divulgar o seu trabalho. A história do violão brasileiro é muito forte, há momentos muito expressivos. A sonoridade do violonista brasileiro, ressalvada questões pessoais, ela é muito diferente do instrumentista estrangeiro. Tenho um disco do Waldo de Los Rios, onde tocam o Choro n.º 1 de Villa Lobos, com um violonista, se não me falha a memória, espanhol. É legal ouvir? É. Mas você percebe que não tem ali o toque brasileiro. É legal você ouvir, pois é do reconhecimento internacional da cultura musical brasileira.

Pergunta: como foi a sua ligação com a Rede Boa Nova de rádio?
João Tomas do Amaral: comecei a divulgar o choro há mais de dez anos, até antes de eu vir aqui para a Rede Boa Nova de Rádio. Ter vindo para cá foi bom sob vários aspectos. Foi uma das boas coisas que aconteceram na minha vida: pelas amizades, pelo tipo de relação que a gente tem aqui, pela proposta de trabalho que foi aceita. Aqui eu vi um bonito trabalho com as crianças, a proximidade com a questão do Espiritismo e eu gosto muito desse vínculo: Espiritismo e Ciência. Isso me fascina. O programa "Chorinho Brasil", ganhando cada vez mais audiência e a Rede Boa Nova também tendo uma amplitude maior, a entrada no satélite Brasil Sat, para todo o Brasil, a entrada para a Internet. Hoje temos ouvintes, não só em todo o Brasil, mas no "Chorinho Brasil" chegam ligações do Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Suíça, Japão, Portugal, entre outros paises. Tem ouvintes que se identificam, se comunicam, como um senhor que estava no Japão, inclusive era espírita, ouvia toda a programação, voltou, veio para São Paulo e levou a filha dele para estudar na escola em que eu sou diretor e me disse: "- Poxa, você é o diretor aqui, você que apresenta o "Chorinho Brasil!".

Pergunta: e o movimento dos chorões, como está?
João Tomas do Amaral: o movimento do choro cresceu muito. O "Chorinho Brasil" passou a ser uma referência, pois é o único programa que trabalha especificamente o choro. Não é um programa de variedades que toca choro. É um programa de choro que toca choro. A gente também abre espaços pra pessoas que têm um trabalho diferente. É um programa acima de tudo de amigos. Vindo ao programa, vai tocar bossa-nova, samba, mas o foco principal é o choro.

Pergunta: sendo a maioria dos associados e aficionados do Clube Di Giorgio alunos de violão, violonistas amadores ou mesmo apreciadores da música e do violão, que conselhos, baseados na sua experiência com a música, você daria a eles?
João Tomas do Amaral: na minha observação, porque não sou instrumentista; comecei com o violão, tentei passar para o bandolim, mas quebrei o pulso jogando bola e meu dedo não fecha muito bem, mas não me atrapalha; até seria legal voltar a tocar como fisioterapia. Mas na minha observação, de conviver com uma boa parte dos instrumentistas vinculados ao movimento do choro, vejo assim: a carreira musical é gratificante, porque a música aproxima as pessoas. Fazer música sozinho é muito complicado. É gostoso tocar para as pessoas ouvirem. Música é um coisa para compartilhar com as pessoas, principalmente com as pessoas quem você gosta. É uma carreira, para muitos, promissora. A pessoa deve estar envolvida com a música. É assim que eu estimulo meus filhos. Procuro mostrar para eles que eles têm que levar também uma carreira acadêmica e pode até, amanhã ou depois, ser uma carreira acadêmica voltada para música, por que não? Que não fique só na música, mas ela seja levada em paralelo. É assim que tenho conversado com meus filhos Rafael e Gustavo. O Rafael tem 16 anos e toca bandolim e violão e o Gustavo está aprendendo violino na ULM. Mas eles não deixaram os estudos formais. Então o que eu oriento é a mesma coisa que procuro passar para os meus filhos: acho que vale a pena fazer música. Além de você estar desabrochando um grande talento, reforçar os aspectos da alma, você tem a oportunidade de transcender um pouquinho nessa coisa do fio condutor do artista. O artista navega em espaços mais elevados, mas se a pessoa puder, vale a pena dar seqüência numa carreira acadêmica e universitária, mesmo que seja no aspecto da música.
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