Mario AlbanesePergunta: como a música começou na sua vida?
Mario Albanese: eu sou músico por formação e até por hereditariedade, porque a minha família é de músicos, principalmente por parte da minha mãe que foi professora de música(ela herdou de meu avô toda uma classe de músicos) pois ela ensinava bandolim, violino e piano. Nesse ambiente rico que eu vivia, resolvi ser músico. Sou formado pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e tenho a honra de pertencer à Academia Internacional de Música.
Pergunta: e como o violão fez parte de sua vida?
Mario Albanese: embora tenha a minha formação voltada para o piano, eu sempre tive um forte vínculo com o violão. Meu primeiro vínculo foi com o violonista Anibal Augusto Sardinha, o Garoto. Eu achava que o violão nada acrescentaria na minha concepção de música por não ter os mesmos recursos que tem o piano (que tem 88 notas com extensão de várias oitavas). Quando conheci o Garoto, mudei, porque ele era um gênio. Tornou-se um grande amigo. Fui parceiro dele, tenho a honra de dizer isso. Tocamos juntos.
Com o Garoto, o violão tomou uma projeção e uma postura extraordinária. Conheci também Isaías Savio (grande mestre uruguaio de nascimento e brasileiro de coração). Até tentei estudar violão mas me doíam os dedos e meu negócio era mesmo o piano (para executar).
Participei no "Fino da Bossa" quando nos conhecemos, no bar ao lado do teatro, eu tomando um cafezinho aos 16 anos de idade. Foi o início de uma grande amizade: conversamos (eu já tinha ouvido o jequibau, criação de Mario Albanese e Ciro Pereira, com pulsação em 5/4 e com uma característica e natureza própria diferente do 3+2 ou 2+3) e por intermédio do Mario fui o 1.º violonista a gravar o jequibau inclusive para os Estados Unidos.
Na mesma época conhecemos o violonista Macumbinha, fizemos uma dupla e passamos a divulgar o jequibau em emissoras de rádio, TV e teatros.
Pergunta: como os violões Di Giorgio entraram nesse cenário?
Mario Albanese: na época o Sr. Reinaldo Di Giorgio era um grande incentivador do violão, tendo inclusive um programa na Bandeirantes aos domingos às 8 da noite. Através do patrocínio da Di Giorgio passamos a fazer o programa "Ensinando Violão" na TV Cultura canal 2
Foi uma atitude arrojada, pois estamos falando dos idos de 1965. O Reinaldo (Albanese se refere ao pai de Sr. Reinaldo Di Giorgio Jr.) foi um grande amigo, uma pessoa que eu sempre admirei e quero muito bem porque a pessoa morre mas fica a lembrança e essa lembrança será sempre eterna.
Também o pai dele, o Sr. Romeo Di Giorgio de quem ganhei um violão Di Giorgio. Tenho um carinho muito grande pela família Di Giorgio. O Reinaldinho está seguindo de maneira brilhante as pegadas do pai.
Pergunta: além da TV quais eram os outros programas?
Mario Albanese: também criamos na rádio Excelsior (hoje CBN) o programa "O assunto é Violão". Vejam que coisa curiosa: eu como pianista fazendo programas sobre violão! Porque eu entendia que tinha duas jóias na mão: o Silvio e o Macumbinha que se davam muito bem e esse programa também teve o patrocínio da Di Giorgio; foi extraordinário para o violão.
Pergunta: o que você fez para incentivar outros violonistas que estavam iniciando sua carreira artistica?
Mario Albanese: Criamos um concurso para violão, dividindo esse concurso em diversas faixas etárias. Através desse concurso revelamos muita gente que está viva no cenário musical até hoje! O duo Assad (Sérgio e Odair - ambos ganharam cada um na sua categoria). Participaram também Noé do Santos, Henrique Pinto e Antonio Carlos Sarno, Eduardo Gudin entre outros. Portanto, a minha ligação com o violão começou com o Garoto e continua até hoje; teve o Breno(a quem eu ensinei música) e que um coralista e também violonista. O Ivo Araújo, violonista e que também toca cavaquinho, foi também amigo muito próximo de Garoto. Por todo o trabalho feito em prol do violão fui premiado com o troféu Di Giorgio dado através do Sr. Reinaldo Di Giorgio - troféu que guardo até hoje com muito carinho. Recentemente, Paulo Belinatti, através de seu site na Internet fêz uma referência ao programa "O Assunto é Violão", por intermédio do qual teve contato com o jequibau e outras brasilidades. Embora o violão tenha a Espanha como tradição eu o considero um instrumento típico do Brasil - é um instrumento intimista, que você carrega com facilidade, tem esse formato de mulher (que a gente gosta muito).
Pergunta: E o violonista Bonfim, como entrou para o Jequibau?
Mario Albanese: me falavam que havia um violonista que tocava na noite as minhas composições. Fui assistir e me surpreendi; o violonista Bonfim (Luis Alves da Silva), tocava o jequibau com extremo balanço e desembaraço. Temos até hoje feito coisas juntos. Na verdade, ele acabou por substituir o Macumbinha de maneira brilhante. Bonfim vive exclusivamente tocando violão, na noite, em teatros, hotéis, viajando (já tocou em Portugal juntamente com Manoel Marques, guitarrista português). É um grande músico.