Henrique PintoPergunta: como você se iniciou no violão?
Henrique Pinto: foi mais ou menos com 10 ou 11 anos de idade. Eu ía muito à fazenda de meu tio, em Rancharia, interior de São Paulo, e ele tinha um empregado que à noite ficava tocando violão. Eu gostava de ficar ouvindo o som desse instrumento e realmente comecei a me encantar com seu som. Aprendi ali os primeiros acordes e quando voltei para São Paulo, estava tão entusiasmado que resolvi procurar um professor. Eram raros os professores na época (isso foi na década de 50) e quem primeiro me ensinou foi o professor Olímpio, na Móoca (bairro tradicional de São Paulo), onde eu morava.
Pergunta: com quem mais você estudou?
Henrique Pinto: depois fui estudar no Conservatório Villa Lobos, estudei também com o professor Sérgio Scarpiello e o professor Manoel São Marcos. Ganhei então uma bolsa de estudos e fui para a Espanha, em Santiago de Compostela, estudar com o José Thomaz, que era assistente do Segovia. Lá fiquei impressionado com o nível dos alunos, pois muitos tocavam inclusive a Chaconne, de Bach, peça de execução muito díficil
Voltei a São Paulo, tive aulas com Isaías Savio, com Barbosa Lima, conheci Abel Carlevaro no Rio Grande do Sul e ele me concedeu uma bolsa, ocasião em eu fui a Montevidéo, Uruguai, ter aulas com ele. Conheci também Guido Santórsola.
Pergunta: e como foi o seu interesse pelo violão clássico?
Henrique Pinto: embora aquele violão do empregado do meu tio fosse algo simples, com apenas alguns acordes que ele fazia, ao vir estudar com o prof. Olímpio, iniciei pelo método do Carcassi, começando a perceber aí, uma ordem. Mas eu sinto muito a falta de não ter estudado música popular.
Acho que o músico popular tem uma visão de harmonia, de improvisação e de criatividade muito maior que na música erudita. Mas o ponto central do meu estudo foi o violão clássico, por música.
Pergunta: nesse seu estudo você já vislumbrava o seu futuro profissional dentro da música, como violonista e professor?
Henrique Pinto: quando comecei a estudar o violão, me dedicava horas estudando, tinha a finalidade mesmo de tocar o violão, criar um repertório, enfim ser um concertista. Acontece que aos 14 anos de idade eu já comecei a dar aulas e embora eu trabalhasse (aos 17 anos era bancário) e estudasse no colégio, foi decisivo o apoio que recebi do meu pai que me incentivou a me dedicar à música. Embora eu sempre fosse um apaixonado pelo violão, no início não acreditava que uma profissão ligada à música fosse proporcionar o meu sustento.
Mas meu pai, com seu incentivo, disse que se não desse certo, eu poderia fazer outra coisa, mas para primeiro eu tentar e acreditar. Passei a dar muitas aulas, pois íam aumentando os alunos e essa atividade começou, não a ser um "trabalho", mas algo que eu me dedicava com prazer; para mim exercer atividades com música era uma diversão. Descobri então, que além de fazer alguma coisa que eu era apaixonado por ela, eu ainda ganhava dinheiro, pagava as minhas contas.
Pergunta: quando surgiu a sua primeira obra didática?
Henrique Pinto: quando comecei a dar aulas, usava o método de Isaías Savio. Depois comecei a usar outros livros didáticos, além do Savio, o São Marcos, o Sagreras, Arenas, Mascarenhas e outros métodos que surgiam. Sem eu perceber estava fazendo uma experiência e observando até que ponto funcionava cada um desses métodos. Juntamente com isso, comecei a pensar em alguma obra didática de minha autoria, também. Como eu organizava sempre muitos recitais com alunos, fazia um movimento em torno do violão erudito, a Ricordi entrou em contato comigo e me convidou a editar um método meu, por causa da repercussão do meu trabalho.
Era tudo o que eu esperava. E foi editada a minha primeira obra: "Técnica da Mão Direita". Daí, veio "Iniciação ao Violão", que é um resumo de toda essa experiência que eu tive, procurando sintetizar o que para o aluno é interessante, o que é importante quando ele começa a estudar. Acho importante que o professor saiba pensar como o aluno, ter o mesmo nível de afetividade que ele vai ter em relação ao aprendizado. Li também Piaget, procurando entender o funcionamento de nossa mente no processo do aprendizado.
Pergunta: e os seus livros são usados nas escolas de Música?
Henrique Pinto: tive o prazer de que minha obra fosse aceita na maioria das escolas de Música do Brasil. O "Iniciação ao Violão"chega a vender mais de 4 mil exemplares por ano. Também editei o livro "Curso Progressivo" que a meu ver é uma obra um pouco mais complexa.
Pergunta: você fêz alguma obra didática para crianças?
Henrique Pinto: sim. a "Ciranda das 6 Cordas", com muitos desenhos, notas em tamanho grande. Cada nota que se acrescenta tem uma historinha. Foi o único livro da Ricordi que foi editado no exterior: na Itália e na Suíça.
O sucesso do "Iniciação ao Violão" tem sido tão grande que foi editado também o "Iniciação ao Violão" volume 2. Seguindo os meus métodos, o aluno que estuda corretamente, chegará no ponto em que poderá tocar obras de Villa Lobos, Dilermando Reis, Baden Powell, Paulinho Nogueira, etc.
Pergunta: e no exterior qual tem sido o seu trabalho?
Henrique Pinto: faço recitais e dou cursos, tendo ido para Cocha Bamba e La Paz (na Bolívia), Assuncion (no Paraguai), Medellin (Bolívia), Santo Tirso e Aveiro (Portugal) e mais recentemente, nos Estados Unidos.
Mesmo dentro do Brasil, há os Festivais de Violão, onde vou dar aulas como em Brasília, Salvador, Vitória, Natal, Rio Grande do Sul.
Pergunta: você lançou também um trabalho de aula em vídeo. Fale-nos sobre isso.
Henrique Pinto: É um resumo do meu trabalho didático, onde eu explico, por exemplo, o que é memória muscular, memória auditiva, memória visual; exemplos práticos de cada lição com execuções minhas e de alunos.
Pergunta: e gravações, quais você fêz?
Henrique Pinto: tem uma gravação com o "Câmara Trio" que já foi feito há alguns anos. Acabei de lançar também um outro CD do "Violão Câmara Trio", agora com uma outra formação. Tenho também uma gravação feita com violão e violoncelelo que se chama "Violãocelando" com a violoncelista Grechen Miller. Acho importante também, além da atividade de professor, executar o instrumento.
Alguns dos arranjos das obras gravadas já estão prontos, editados e outros foram elaborados pelo João Luís, Daniel Wolf e o Jácomo Bartoloni.