Paulo BellinatiPergunta: como surgiu o seu interesse pelo violão?
Bellinati: meu pai tinha um violão em casa e bem cedo comecei a me interessar pelo instrumento. O violão ficava na casa de meu avô e eu brincava com ele; meu pai tocava também. Quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, pedia para meu pai me mostrar como se faziam os acordes.
Pergunta: com que idade você começou a estudar?
Bellinati: comecei a estudar aos 14 anos com a Wanda Borghese, uma professora particular da Moóca (bairro que eu morava). Aí foi uma coisa fulminante: eu via outros alunos tocando choros como “Cacique”, de Attilio Bernardini, “Romance de Amor”, de Rovira, músicas de Dilermando Reis, enfim foi uma descoberta para mim. Tinha em casa um disco do Dilermando (“Abismo de Rosas”) que eu ouvia sempre, e queria tocar as músicas que ouvia. Aí se iniciou a minha paixão pelo violão.
Pergunta: E o profissionalismo veio quando?
Bellinati: Fiquei profissional muito rápido. Fiz um conjunto no ginásio; nessa época eu tinha de 15 para 16 anos, quando comecei a tocar também em bailes e comprei uma guitarra.
Pergunta: E o estudo do violão clássico?
Bellinati: Ao mesmo tempo que eu me profissionalizei, entrei no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo para estudar com o Isaías Savio (eu tinha 16 anos) e me formei 3 anos depois; portanto, comecei o popular e o erudito praticamente ao mesmo tempo: tocar guitarra, tocar em conjunto, fazer bailes e estudar o violão erudito. Nesta época também comecei a dar aulas.
Pergunta: e sobre os seus estudos no exterior?
Bellinati: tendo oportunidade de participar dos Festivais de Música em Campos do Jordão, na Bienal de Música da USP, comecei a fazer contatos com outros professores como Turíbio Santos e isso me influenciou a ouvir violonistas europeus como Julian Brean, John Williams, Leo Brower. Acabei indo para a Europa em 1975. Queria ter um violão feito por um luthier de primeira linha e visitei vários na Europa. Comprei um Walter Vogt 1975, na Alemanha, fiquei na fila de espera de vários outros como o Ignácio Fleta (Espanha). Hoje meu violão principal é um Paul Fischer(Inglaterra)que usei para gravar o disco do Garoto.
Na Europa consegui uma bolsa de estudos e fiquei 6 anos em Genebra, onde estudei Composição, Orquestração, Acústica, Solfejo e Percepção superior, enfim tive uma formação musical bem sólida.
Pergunta: E o seu lado de músico popular nesta época, como ficou?
Bellinati: Paralelamente a esse estudo todo, não deixei de fazer música popular; formei um conjunto, toquei no Festival de Jazz de Montreaux, posso considerar que minha carreira internacional começou nesse momento. Tocava músicas brasileiras (apesar de não ter nenhum brasileiro no meu conjunto a não ser eu).
Eu fazia algumas composições e elaborava os arranjos.
Pergunta: Você teve idéia de ser algo diferente de músico?
Bellinati: Não. Sempre fui e desejei ser músico; nunca trabalhei com nada que não fosse música - embora, mais para atender os anseios de minha mãe, acabei fazendo a Faculdade de Direito, que hoje muito me ajuda principalmente por causa do problema dos direitos autorais; foi um curso que teve esse lado muito bom para mim. Só não fiz a Faculdade de Música porque na época não havia tal Faculdade.
Pergunta: E o seu trabalho de compositor?
Bellinati: Começou na Suíça, onde me vinham idéias musicais para compor. Comecei a visualizar esse campo novo para mim e nas primeiras composições que comecei tocar percebi uma reação muito boa nas pessoas e senti que deveria fazer mais!
Pergunta: Embora você tenha estudado na Europa, as suas composições são totalmente brasileiras, com as características da nossa música. Como se explica isso?
Bellinati: Na época em que eu fazia bailes no Brasil, trabalhava também no navio “Rosa da Fonseca” e “Ana Nery” (2 translatlânticos brasileiros); era uma viagem que fazia Santos-Manaus em 26 dias, parando em todos os lugares, sendo que eu fiz várias dessas viagens como músico de bordo, trabalhando em conjunto.
Isto foi muito rico, porque nas paradas em Salvador, Recife, Belém, Fortaleza, eu ia ver os shows folclóricos: (os grupos de maracatu, ouvi o boi, carimbó), sem querer eu estava fazendo uma pesquisa que foi ficando dentro de mim.
Como nesse momento eu estudava com o Sávio, foi através dele que tive contato com Waldemar Henrique, compositor importante do Pará. O Sávio me fazia tocar esse repertório brasileiro em concertos; músicas do Waldemar Henrique, do Hekel Tavares e do próprio Sávio. Tudo isso foi uma influência musical que entrou em mim e que depois de alguns anos começou a sair: choro, baião, jongo, maracatu, etc.
Pergunta: E sobre o seu trabalho a respeito do violonista e compositor Anibal Augusto Sardinha, o Garoto?
Bellinati: Aconteceu quando voltei para o Brasil em 1981. Fiz um disco histórico, de pesquisa; toquei e transcrevi as músicas do Garoto do jeito mais original possível - a única peça em que fiz o arranjo completo foi a valsa “Desvairada”, pois essa o Garoto tocava no violão tenor com regional acompanhando. Documentei tudo de uma forma original. Ouvia gravações que conseguia com o Ronoel Simões, algumas de outros lugares e outras em manuscritos como “A Caminho dos Estados Unidos”, “Doce Lembrança”, “Enigma” que não estavam gravadas. Tudo foi gravado e editado nos Estado Unidos, pela “Guitar Solo Publications”, em São Francisco: Dois álbuns de partituras(24 solos) e o CD “The Guitar Works of Garoto”. Este trabalho sobre o Garoto me fez voltar para a carreira de solista, pois eu estava meio afastado por tocar em conjunto ( o “Pau Brasil”, com Nelson Ayres, Roberto Sion, Rodolofo Stroeter). Recomecei minha carreira de violonista.
Pergunta: quais são suas atividades atuais?
Bellinati: bem, atualmente cuido do meu filho (risos). Eu viajo demais. Parece que viajar é bom, mas chega uma hora que a gente se cansa, é muito desgastante e em 2002 diminuí bastante as viagens internacionais. Na carreira artística a gente está sempre investindo e acaba aceitando convites para viagens, para ficar conhecido, mas isto não tem fim; È difÌcil chegar a esse sonhado momento como para o Segóvia, o Paco de Lucia. Então diminuí as viagens, fico mais em casa, voltei a dar aulas, escrevo as minhas partituras, arranjos (como os do afro-sambas) e também composições. As partituras de violão exigem um trabalho muito grande: no mesmo pentagrama tem a digitação, as indicações de pestana, dinâmica, articulação, tem o baixo, a melodia, tem as vozes do meio. Por ser tudo em um único pentagrama, fica uma partitura muito trabalhosa (diferente do piano que você pode distribuir em 2 claves).
Pergunta: os seus arranjos e composições são publicados no Brasil?
Bellinati: não. Infelizmente o Brasil é o país do “xerox”, o que faz com que o trabalho do compositor e do arranjador não seja reconhecido. Não é uma crítica é uma realidade que a gente vive. Mas em se tratando de um compositor brasileiro, não faça xerox, eu aconselho assim; ele já está escrevendo a música para você tocar, não custa nada pagar 5 ou 10 reais uma partitura, do que dar o dinheiro para a Xerox do Brasil; o dinheiro está indo para a mão errada (a Xerox não vai escrever a música). A saída para o meu trabalho foi lançar nos Estados Unidos. Cheguei a oferecer o meu trabalho sobre o Garoto para a editora Arlequim e ele foi rejeitado por acharem que não vendia nada. E nos Estados Unidos a obra já está na quarta edição: o Garoto ficou conhecido no mundo inteiro, os filhos do Garoto, que são meus amigos, recebem algum dinheiro de direito autoral, enfim, foi uma divulgação enorme para o violão brasileiro, mundialmente.
Pergunta: Você tem empresário?
Bellinati: Só na Europa. Eu passo muitas horas admininstrando minha carreira. A carreira não é simplesmente estudar, trocar a corda e ir lá tocar, tem a administração - eu sou o meu próprio empresário, gasto muito tempo com isso, respondendo os meus e-mails, é trabalhoso. Tenho que responder para as pessoas e em outros idiomas. principalmente em Inglês, há uns anos atrás eu fazia isso com máquina de escrever, fax e correio; hoje melhorou muito com a Internet.
Pergunta: E as mais recentes apresentações?
Bellinati: Cheguei da Europa agora. Ainda viajo muito, embora tenha reduzido o número de viagens anuais, mesmo assim já tenho 4 agendadas para 2003. Toco com o cantor espanhol Antonio Placer, fizemos um CD juntos. Tenho tocado com o Steve Swallow, que é um baixista americano, tenho um duo com a cantora Mônica Salmaso e também com o flautista Antonio Carrasqueira.
Paulo Bellinati também dá aulas (masterclass). Os interessados em qualquer contato podem acessar o site www.bellinati.com