Yamandu CostaPergunta: por que você escolheu o violão para tocar?
Yamandu: bem, começou tudo com meu pai, que era um violonista, tocava bem o instrumento, e também um argentino chamado Lúcio Yanel. Muito cedo eu o vi tocando e fiquei impressionado com a técnica dele. Comecei a tentar imitá-lo a tocar músicas gaúchas.
Pergunta: como você chegou ao seu estilo de tocar? Quais foram as influências?
Yamandu: essa pergunta de chegar ao estilo próprio é interessante... nunca me fizeram essa pergunta... mas eu sempre estive preocupado em criar, em ter uma característica, por isso é que sempre fui bastante eclético em matéria de violão. Toquei guitarra, também. Fiz muito baile, ou seja, fiz coisas diferentes. Isso resultou numa boa combinação e deu suporte para desenvolver uma maneira própria de tocar.
Pergunta: então o início foi com que idade?
Yamandu: aos 8 anos. Nessa idade é que comecei a brincar com o instrumento. Lá pelos 11 anos eu já tocava direitinho, já solava diversas músicas. Quer dizer, comecei com 8 anos, mais de brincadeira, por exemplo, cantando, acompanhando. Quando eu fiz 11 anos, desencantou alguma coisa. Em julho, e dezembro, eu já estava tocando; foram 6 meses que eu toquei direto, sem parar: foi aí que eu comecei mesmo a tocar.
Pergunta: você fez um estudo didático, com técnica, peças, choros. Qual foi o repertório?
Yamandu: muito variado. Nunca cheguei a tocar o violão erudito. Toquei, claro, peças de Tárrega, de Barrios, dos compositores espanhóis, mas sempre foi uma coisa bem popular, porque tive também a sorte de tirar músicas de ouvido; isso abre a cabeça da gente. O choro nunca foi o repertório principal. Eu tocava muitos peças folclóricas gaúchas, essa é que era a minha onda. Depois é que fui me dedicar ao choro. Conheci o Baden, mas antes era um estilo "gauchão" mesmo.
Pergunta: você não teve um professor propriamente, com aulas formais?
Yamandu: não tive. O argentino a que me referi, Lúcio Yanel, foi uma inspiração, ele nunca me passou uma nota musical. Eu nunca tive professor de nada. Ele nunca me deu um acorde. Eu é que o via tocando, tirava as músicas de ouvido, depois mostrava e ele me falava o que estava bom ou o que estava ruim. Eu o via tocar pessoalmente, pois ele tocava nos festivais nativistas e tocava na noite de Porto Alegre; tocava peças folclóricas, músicas de Piazzolla. Eu só o via tocar, nunca tive nenhuma aula.
Pergunta: e sobre o choro?
Yamandu: essa onda do choro é uma coisa muito bacana. É uma música muito completa. Dá ao violonista muita técnica, informação harmônica, intenção de interpretação, tudo isso está inserido no choro.
Pergunta: quais foram os seus ídolos como violonista?
Yamandu: ah! foi o Baden. Uma figura muito importante no violão, muito peculiar, muito forte. Outro também que admiro é o Django Reinhart, que me abriu a cabeça: o que é o músico interpretar, falar com o instrumento. São os que eu mais aprecio.
Pergunta: como você elabora os seus próprios arranjos?
Yamandu: através de todas as influências que eu citei. Eu crio em cima de uma melodia, dentro do meu próprio estilo de tocar. Eu acho que sou muito "metido", na verdade. Pego as músicas dos compositores e começo a tocar "de qualquer jeito". De vez em quando dá certo, mas às vezes, não. Não aconselho que se faça isso. É o meu jeito de tocar, mas é necessário cuidado, e p principalmente respeito com a obra e com o compositor.
Pergunta: você pratica exercícios de técnica?
Yamandu: não tenho paciência para isso.
Pergunta: então a agilidade que você tem nos dedos é decorrente de uma tendência natural, ou seja, coisas que você faz com uma certa facilidade, para outros tem que ter muito exercício para poder fazer?
Yamandu: eu não sei disso. Eu sempre toquei rápido. Músicas como "Desvairada" (Garoto), "Vôo do Bezourro" (Rymsk-Korsakow), acho que foi isso, a vontade de tocar esse tipo de música é que me deu a agilidade, a técnica. Nunca fiz exercícios. Sempre foi natural, mesmo. Essa escola hispânica, que vem do Chile para a Argentina, que chegou no Rio Grande do Sul - é a escola que eu tenho. É muito diferente de tudo, diferente do pessoal que vai direto para a Espanha buscar informações. Essa escola espanhola eu também tenho, mas ela é misturada com essa outra influência Argentina. Isso veio parar na minha mão pelo Lúcio Yanel: essa coisa da firmeza, do violonista tocar forte, de ter a tendência de tocar rápido.
Pergunta: fale-nos sobre o seu CD.
Yamandu: o mais recente foi o CD lançado pela El Dorado. No final do ano, tenho um programado um novo CD, que vai ser um projeto com a cara do "show ao vivo". O primeiro foi um CD elaborado com cordas, etc., mas o próximo vai ser com a cara de coisa ao vivo mesmo.
Sobre o violão Di Giorgio, gostaria de narrar um episódio que ocorreu com o meu pai. Em 1978, morávamos no Recife e meu pai tocava violão numa churrascaria. Ele foi convidado para tocar na casa de uma pessoa (meu pai gostava muito de festas, de se apresentar). A pessoa se apaixonou pelo trabalho musical dele (com a minha mãe, também) e presenteou meu pai com um violão Di Giorgio, que, na época, eram feitos 3 desses violões por ano. Era um violão de 1964, ou 1965 mais ou menos. Era um "Author" especial, com tarraxas de ouro, um jacarandá preto, no fundo. Esse violão era um piano! Mas em 1987, meu pai estava tocando na noite, em Porto Alegre, eu estava vindo junto com ele de um show (eu era bem criança). Estava no colo do meu pai, quando ele, para abrir a porta do prédio que morávamos e transportar as muitas coisas que carregava para dentro de casa, acabou esquecendo o violão e quando voltou o violão havia sumido. Gostaria de saber se a Di Giorgio tem na reserva, na fábrica, este tipo de violão, pois eu gostaria de ter uma cópia desse modelo.