Wagner Benatti (Bitão)Pergunta: seu primeiro contato com o violão?
Bitão: os "Beatles", que foram muito importantes para o pessoal da minha geração. Ao ouvi-los, "pirei" e disse: "quero tocar isso aí". Isso foi em 1964, quando eles vieram ao Brasil.
Pergunta: mais algum artista serviu como incentivo?
Bitão: sim. A música de Jorge Ben. Eu gostava muito da música "Mais que nada". Era algo realmente surpreendente para mim.
Pergunta: com quem você começou a aprender violão?
Bitão: com o seu Antônio, um antigo amigo da família de minha mãe. Ele era alfaiate e morava próximo a minha casa. Eu morava no bairro do Pari, em São Paulo e ele ensinava violão lá mesmo. Antônio era apaixonado por violão. Gostava muito do Canhoto e da parte de solo. Mas eu gostava de cantar, não apenas solar. Ele tinha um violão muito antigo (era um Del Vecchio) e, às vezes, ele deixava tocá-lo. Após uns 6 meses de estudo, meu pai percebeu que eu levava jeito e comprou meu primeiro violão.
Pergunta: e você deu continuidade aos seus estudos?
Bitão: após os primeiros ensinamentos, me tornei um autodidata baseado nos Beatles. Também gostava dos Rolling Stones e outras bandas.
Pergunta: O que você aprendeu nos primeiros ensinamentos?
Bitão: Um estilo mais popular. Seu Antônio engatinhava um pouco no ensino de música e, com ele, aprendi alguns rudimentos. Aprendia as posições e o acompanhava. Acontecia assim: ele ensinava o acompanhamento de "Sons de Carrilhões", de J. Pernambuco. Daí ele solava e eu acompanhava. O mesmo se fazia com "Abismo de Rosas", de Canhoto.
Ele ensinava pouco o solo das músicas. Como eu gostava mais de cantar fiquei mais ou menos um ano com ele e depois segui meu próprio caminho.
Acompanhava revistas que existiam na época, como a "Melodia".
Pergunta: E como se desenvolveram suas idéias de harmonia e acordes?
Bitão: Sempre de ouvido. Olhava os outros tocarem e tentava copiar: colocava os dedos no braço do violão procurando as notas que soavam.
Com o passar do tempo, me aprofundei um pouco mais.
Pergunta: Você aprendeu a técnica dedilhada ou começou com palheta?
Bitão: Comecei com a técnica dedilhada porque o seu Antonio abominava palheta! O máximo que podia usar era uma dedeira... Ele tocava muito choro e como a peça é muito usada pelos violonistas nesse estilo de música, ele permitia.
Depois, para tocar o que eu estava gostando, na época aquele rock inglês incipiente, muitas vezes tinha que ser com palheta.
Pergunta: após o violão, como você seguiu para a guitarra?
Bitão: até o final de 1965, eu só tocava violão, daí meu pai comprou uma guitarra chamada "Ritmo II", da Gianinni. Foi uma época que comecei a tocar no conjunto "The Bats". Antonio Vidal era o solista, o Adilson tocava na bateria e eu fiquei improvisadamente como contra baixista, porque tínhamos o Valcirlei, um guitarrista base. Na verdade, eu ainda não fazia o que queria: cantar. Éramos um conjunto de música solo, baseado no "The Ventures", "The Jet Blacks", "The Jordans". Seguíamos esta mesma linha de rocks solados.
Atualmente, trabalho tanto com violão quanto com guitarra.
Pergunta: e quando você começou a cantar?
Bitão: por volta de 1967. Aconteceu quando passei para outro conjunto chamado "Megatons". Na época, era uma banda importante que tocava mais músicas soladas. Para apresentar nos bailes, procurei fazer mais músicas cantadas. E, depois do sucesso arrebatador dos Beatles, começamos a fazer mais músicas cantadas.
O fundador dos "Megatons" foi o Primo Moresque, ou seja, o mesmo que havia fundado os "The Jet Blacks".
Pergunta: e o caminho de suas próprias composições?
Bitão: em 1967, fiz a música "O Tijolinho", sucesso na voz de Bob de Carlo. Ele também participou da banda "The Jat Blacks".
Para fazer músicas próprias, acho que o músico precisa estar apaixonado pela música, pelo instrumento. Assim, fatalmente, mesmo que em menor escala, ele será um compositor.
Há músicos que lêem a partitura e se limitam a tocar o que lêem, são músicos fechados para a criação. Estes interpretam o que está escrito ou precisam de um regente para melhor interpretar a música. Há aqueles que interpretam o que está escrito e também têm o seu valor. E há aqueles que conseguem criar, fazer além do que está escrito.
Pergunta: Como foi o seu ingresso no conjunto "Pholhas"?
Bitão: Eu tocava num conjunto chamado "Sidnei e seu Moderno Conjunto de Ritmos", que anteriormente se chamava "The Maskers". Fazíamos bailes na região do Pari, principalmente no clube "A Estrela do Pari".
A banda era composta pelo Sidnei, um grande músico e também luthier, um rapaz chamado Willians, que tocava com o Sidnei, que era primo do Paulinho (o baterista dos Pholhas).
A banda que o Paulinho tocava naquela época se chamava "Wander Mass Group". Ele era o baterista, o Tinho cantava, o Hélio Santisteban ficava nos teclados e Oswaldo Malagutti no baixo.
No final de 1968, a banda foi desmanchada e vieram falar comigo. O bom é que o trabalho deles coincidia com o que eu queria tocar.
Daí, no início de 1969, saí do “Sidnei” e formamos "Os Pholhas". A banda foi batizada pelo Marco Aurélio, um amigo de todos nós.
Pergunta: que conselho você pode dar aos sócios do Clube Di Giorgio que
estão iniciando no violão, na música?
Bitão: hoje em dia, no Brasil, você encontra músicos excelentes, não só
no violão mas em outros instrumentos. Isto acontece porque, além da divulgação na mídia, os instrumentos são muito melhores do que há 30, 40 anos atrás.
Se o principiante tem condições e deseja se aprofundar na música, a escolha de um bom instrumento é primordial. Estudar um pouco de técnica em alguma escola também é fundamental.
Diferente da minha época, quando as escolas eram tipo conservatório e ensinavam mais os clássicos, agora é possível encontrar excelentes escolas de música que ensinam, além do erudito, técnicas e elementos importantes para a música contemporânea.
Este primeiro estudo básico é necessário até para quem pretende ser autodidata. Muitos dos bons músicos conseguiram uma boa técnica através de orientações. Abuse das muitas opções de vídeo existentes e estude muito!