Prof. Manoel São MarcosPergunta: qual o seu país de origem?
Manoel São Marcos: nasci em Portugal.
Pergunta: como se interessou pela música?
Manoel São Marcos: quando criança, eu já gostava muito de música. As barbearias de antigamente disponibilizavam um violão e uma guitarra portuguesa para aqueles que sabiam tocar. Eu ia assistir para ver como os outros faziam e ao chegar em casa, copiava. Foi assim que começou. Depois, aos 13 anos segui para o seminário pois queria ser padre.
Pergunta: e o seu primeiro instrumento?
Manoel São Marcos: eu mesmo construí aos 9 anos. Descobri na casa de um tio o braço de uma guitarra portuguesa que ele não tocava mais. Daí, eu montei a caixa com madeira trazida do Brasil pelo meu pai que era viajante. Foi feita de cedro. Eu mesmo cortei, fiz o fundo e arranjei o pinho para fazer o tampo.
Pergunta: e as laterais?
Manoel São Marcos: minha mãe me arranjou uma peneira e eu fiz as laterais. Este foi o meu primeiro instrumento musical: uma guitarra portuguesa, construída por mim mesmo aos 9 anos de idade! E passei a ir nas barbearias não só para assistir como também tocar violão.
Pergunta: quando começou a estudar música?
Manoel São Marcos: bem, antes de ir para o seminário, tocava violão e fazia serenata com um amigo. Comecei a estudar quando ingressei no seminário. Lá, foi feito um teste com o piano: o professor tocava e a gente entoava. Meu resultado foi excelente. Reproduzi exatamente aquilo que o professor tocava. Depois, passei a aprender o solfejo cantado e a fazer parte do coral.
Pergunta: quando o senhor aprofundou seus estudos de violão?
Manoel São Marcos: em 1941 conheci o Isaías Sávio. Eu já tocava violão e passei a estudar muito com o Sávio, tornando-me mesmo muito amigo dele. Logo depois também comecei a lecionar e os alunos vinham por indicação de outros. O Sávio é uma pessoa extraordinária, boa, desprendida dos bens materiais e casado com uma francesa, a Sra. Youki. Eu e minha esposa nos tornamos grandes amigos do casal.
Pergunta: com que idade o senhor veio para o Brasil?
Manoel São Marcos: aos 16 anos saí de Portugal rumo ao Brasil e continuei tocando violão. Logo me casei e, aos 20 anos, tive meu primeiro filho. Hoje, eu vou fazer 94 e ele tem 74 anos, é contador e vive em Santos. Também tenho um filha, a concertista de violão Maria Lívia São Marcos.
Pergunta: a Maria Lívia, naturalmente começou a estudar com o senhor?
Manoel São Marcos: sim. Comprei um violão pequeno mas ela queria aprender no meu violão. Eu mesmo criei um método de ensino para crianças pois o material que existia aplicava-se a adultos. Eu morava no centro de São Paulo, o prédio era antigo e as crianças vinham ao corredor chamá-la para brincar. Mas ela preferia estudar. Quando eu questionava "Maria Lívia, elas estão brincando e você está trabalhando" ela respondia admirada "é, estou trabalhando!". No primeiro concerto dela, aos 13 anos, seus amiguinhos compareceram felizes e diziam "Maria Lívia tinha razão. Enquanto estudava, nós brincávamos. Hoje a salva de palmas foi para você e para o seu pai".
Pergunta: exatamente com que idade ela começou a estudar violão?
Manoel São Marcos: aos 5 anos.
Pergunta: atualmente, ela vive na Suíça?
Manoel São Marcos: sim. Quando ela chegou ao país, foi ao Conservatório de Genebra, disse que era formada e ofereceu seus serviços como professora. Na mesma época, ela ia dar um concerto na cidade e convidou o Conservatório. Após a apresentação, o diretor do Conservatório foi cumprimentá-la e disse "a senhorita não é apenas uma violonista, é uma artista. Quero alguém que mantenha a Cátedra de Guitarra Clássica no Conservatório”. De lá para cá, ela leciona e reside em Genebra.
Pergunta: como ela trabalhou para que o violão fizesse parte da música de câmera, dentro do Conservatório?
Manoel São Marcos: teria um concerto de aniversário no Conservatório. Cada instrumento faria o seu concerto e tinha o seu quarteto, menos o violão. Minha filha, pela primeira vez, resolveu fazer um quarteto de violões pois já tinha visto a execução por mim. Ela foi até uma loja de instrumentos e pediu emprestado em nome do Conservatório, um violão baixo e dois violões terço afinados em sol. Fez o quarteto e o sucesso foi tão grande que a partir desta apresentação o diretor do Conservatório resolveu criar música de câmera no violão e criaram a Cátedra de Música de Câmara para Violão.
Pergunta: como é o trabalho didático de Maria Lívia na Suíça?
Manoel São Marcos: ela atende todos os que vão lá para aperfeiçoar o estudo de
violão, os concertistas que vêm de fora para aprimorar os conhecimentos técnicos e
musicais sobre o instrumento.
Os alunos vão até o 6.º ano com outros professores. Para se formarem concertistas estudam com Maria Lívia. Ela tem a Cátedra dela, tem os seus companheiros como a Sônia Jorge, o Dagoberto Linhares que também foram meus alunos. O Rafael Righini, fez Composição e Regência e, através dela, recebeu uma bolsa de estudos e foi para a Suíça estudar anos atrás.
Pergunta: fale-nos sobre o seu conjunto de violões a "Camerata Violonística"
Manoel São Marcos: iniciamos nosso trabalho em 1980 e, ao longo de todos esses anos, nos apresentamos em diversas salas de concertos na capital de São Paulo e em outros estados.
Pergunta: e quem elabora os arranjos?
Manoel São Marcos: eu mesmo. Faz parte do repertório muitas peças que transcrevi para violão assim como vários concertos barrocos, que ao ser escrito para quarteto de cordas, transcrevo o violoncelo, que é clave de Fá. Para o violão baixo, a viola, que é em clave de Dó e os violinos, para o violão normal e o violão terço (afinado uma terça acima).
O Rafael Riguini também fez muitos arranjos para o nosso grupo violonístico.
Pergunta: e quais os autores que vocês executam?
Manoel São Marcos: Haydn, Vivaldi, Bach, J. Dowland, Albinoni, Haendel, Tartinni, Purcell, Torelli, Sávio, Guarnieri, Villa-Lobos entre outros.
Pergunta: que conselho daria aos sócios internautas sobre o violão e seu estudo?
Manoel São Marcos: é preciso estudar muito. Um bom acompanhamento, com passagens e preparo de frases musicais, é imprescindível. Quando o violonista conhece e tem boa técnica, pega a partitura e faz um acompanhamento criativo. Acho também que o violão, no Brasil, só tem a capacidade de manter aqueles que lecionam.