Fransisco AraújoPergunta: você está escrevendo um livro sobre o violão. Fale-nos sobre ele.
Fransisco Araújo: é um livro que situa a história do violão nos movimentos musicais brasileiros. Falo das serenatas, como o violão chegou ao Brasil e através de muitas pesquisas, explico que não foram os portugueses que trouxeram o violão ao nosso país. Eles trouxeram a viola e o cravo a partir de 1549, quando começou a colonização, para a catequização dos índios (isto é historicamente comprovado). Os portugueses (analisando o Classicismo europeu) não tinham nenhuma tradição no violão, tanto que os nomes da escola clássica européia, dentro do violão, são: Carcassi, Caruli, Aguado; e perto do Romantismo encontramos Fernando Sor, mas não encontramos um nome português.
Pergunta: então o instrumento que os portugueses trouxeram em 1549 foi a viola?
Fransisco Araújo: sim, a história da modinha brasileira e do lundu, começa na viola. Não foram os portugueses, nem os negros ou os índios que trouxeram o violão ao Brasil. Foram os ciganos de origem moura e de origem ibérica e que haviam sido expulsos de Portugal.
Pergunta: no seu livro não teremos a história de Segóvia e outros europeus?
Fransisco Araújo: exatamente. Na introdução eu vou dizer: se você quiser encontrar a vida de Segóvia ou Tárrega, não leia este livro. Eles foram geniais, é óbvio, mas é um trabalho que estará ligado ao violão e à sua história musical no Brasil. Nós temos uma história muito intensa e com muito conteúdo, relativa ao violão, à música instrumental e vocal. Basta citar alguns movimentos musicais como a seresta, o choro, a bossa-nova, etc.
Pergunta: você começou com o violão?
Fransisco Araújo: por incrível que pareça, comecei cantando, mas acabei derivando para o violão, pois meu pai tocava (ele tinha um conjunto de choro) e eu gostava de ouvir.
Foi meu pai quem começou a me ensinar as primeiras posições, intuitivamente, embora tecnicamente, muito perfeito. Aí, depois que eu mudei a voz, parei de cantar e percebi que queria mesmo o violão. Comecei a estudar então com o professor José Alves da Silva, o "Aymoré", que era parceiro do Garoto. Estudei teoria, solfejo. Foi através do professor Aymoré que comecei na escola clássica do violão, com 13 ou 14 anos, estudando com seriedade.
Pergunta: e qual foi o compositor que você mais apreciou?
Fransisco Araújo: tornei-me um fã do grande compositor paraguaio Agustín Barrios, que é meu grande ídolo.
Pergunta: e quais foram suas outras referências musicais?
Fransisco Araújo: os autores brasileiros como Garoto, Dilermando Reis, João Pernambuco, Américo Jacomino, o "Canhoto", entre outros.
Pergunta: como você descobriu o seu caminho como compositor?
Fransisco Araújo: desde os 14 anos eu compunha. Minha primeira música chamou-se "Um Triste Adeus". Eu sempre gostei de criar alguma coisa. Como eu não tinha nenhum parâmetro, pois estava começando, tinha vergonha de mostrar as músicas ao professor Aymoré (pela sua rigidez). E quando mostrava para outros colegas mais maduros na música, sempre havia algum defeito, algo de pejorativo que eles colocavam. Eles destruíam tudo o que a gente fazia e não viam as partes boas que poderiam existir na composição, apenas mostravam os pontos negativos. Eu continuei compondo e guardando as músicas, segui estudando e depois de completar os estudos com o professor Aymoré, fui estudar no Conservatório.
Pergunta: você participou de concursos de violonistas?
Fransisco Araújo: sim, entrei em vários concursos de interpretação. Perdi tantos que se tivesse um título para perdedor, o vencedor seria eu... Não havia, na época, concursos de Composição para violão, que só surgiram após a morte do Sávio, fundador do Seminário de Porto Alegre. Então, entrei num concurso de Composição para violão em 1977, no Seminário de Porto Alegre. Foi ali que comecei a perceber que era compositor.
Pergunta: com qual música você participou?
Fransisco Araújo: participei com a "Valsa Virtuosa n.º 1" e venci o concurso. Fiz que nem o Zagalo: "Vocês vão ter que me engolir". A partir de 1979 é que acabei tomando uma nova posição; de intérprete, violonista que tocava obras de outros compositores, comecei eu mesmo a interpretar minhas obras.
Pergunta: a "Valsa Virtuosa n.º 1" está editada?
Fransisco Araújo: sim, como prêmio ela foi editada pela Columbia Music Company, de Washington, nos Estados Unidos.
Pergunta: e você começou a fazer cursos de composição?
Fransisco Araújo: eu não sabia ainda as regras da composição, fazia tudo intuitivamente. Decidi então começar a estudar. O grande compositor tem que ter em primeiro lugar o talento e a intuição. A forma é apenas uma receita e, hoje em dia, com a Internet, qualquer um pode saber a forma de um soneto, de qualquer obra literária, mas compor com qualidade é difícil. É preciso estar na gente e, como dizia Villa-Lobos, é preciso fazer parte de uma função biológica porque temos a necessidade de se expressar.
Pergunta: com quem você estudou Composição?
Fransisco Araújo: com o maestro Guido Santorsola quem me iniciou nos estudos das formas de composição clássica (sonata, suíte, etc). Ensinou-me também Contraponto e Dodecafonismo. Depois disso estudei Composição Contemporânea e Harmonia Funcional, com José Zula de Oliveira e depois complementei mais 3 anos com Koellreutter, que me abriu a cabeça para a música contemporânea. Estudei estética com ele.
Pergunta: E como professor de violão, quando você começou?
Fransisco Araújo: o ano de 1977 foi um marco na minha vida. Eu tinha 23 anos e em 1977, é que comecei a me dividir entre intérprete e compositor. Entrei no Conservatório de Tatuí para dar aulas. Em 1973, eu havia me formado pelo Conservatório Musical de São Caetano do Sul, depois fui estudar na Fundação das Artes, fazendo alguns cursos relâmpagos. No Festival de Campos do Jordão, em 1973, vi o que era o profissionalismo. Fui participar desse festival, porque li no jornal que Segóvia e Guiomar Novais e até Rubinstein poderiam vir ao festival. Isso me deixou eufórico, pois Segóvia é uma referência mundial. Fui ao festival com esse pensamento, mas nenhum deles apareceu. Eu fui e entrei como ouvinte.
Lá estudei, entre outras coisas, um pouco de regência de coral. Depois disso é que eu fui para o Conservatório de Tatuí, em 1977, começando a minha carreira profissional como professor. Dar aulas tomava muito tempo. Lecionava 3 vezes por semana, em Tatuí, mas tinha um emprego, um salário fixo.
Embora eu não me considere um bom didata, sem falsa modéstia, já pus tanta gente tocando e muitos tocando bem. Foi aí que comecei a dividir a minha vida entre professor, intérprete e compositor.
Pergunta: fale-nos sobre as suas experiências musicais pelo Brasil.
Fransisco Araújo: viajei através da Secretaria da Cultura e do Turismo de São Paulo. A Secretaria patrocinou viagens de meses, entre elas uma chamada "Expedição Barca da Cultura", pelo MEC. Quem chefiava isso era o Carlos Magno, uma das figuras emblemáticas do teatro brasileiro. Levava a cultura artística e literária para as capitais brasileiras e lugares também afastados das capitais. Toquei em diversas cidades brasileiras.
Pergunta: E no exterior?
Fransisco Aráújo: mesmo sendo professor em Tatuí, eu queria ir à Espanha, no Concurso de Santiago de Compostela. Era muito difícil, tinha que me preparar para o concurso do qual já participaram vários violonistas brasileiros. Em 1986, mandei as músicas gravadas: Astúrias (Albeniz), Primeiro Movimento da Sonata de Torroba e Tema e Variações da Flauta Mágica, de Mozart (autoria de Fernando Sor). Fui admitido. Fui o único representante latino daquele ano. Tive o privilégio de ir à Espanha e ver o Segóvia.
Pergunta: e como foi o encontro com Segóvia?
Fransisco Araújo: na verdade, ele não me deu aulas neste concurso. Ele esteve lá comemorando os seus 90 anos de idade (morreu no ano seguinte).
O que ele fazia era orientar os participantes, dizendo qual professor cada um deveria procurar. Orientando dessa forma para que fossem sanadas as deficiências que algum violonista pudesse ter. Quando chegou a minha vez, ele abriu o meu prontuário e falou: "Araújo, você não procure mais ninguém. Eu sei que você é um compositor e não quero que me pergunte se gostei ou não das suas obras, mas elas têm muita originalidade. Você deve seguir o seu caminho como compositor, e será um marco na história do violão". Isso foi a coisa mais emocionante da minha vida e apesar de todos os antagonismos que eu tive com os professores lá do curso, a palavra do mestre Segóvia, definindo que eu teria que seguir o meu caminho foi a luz final, mostrando que eu tinha que lutar, tinha que andar por essa estrada, definindo a minha real posição. Daí pra frente, nunca mais deixei de tocar as minhas obras.
Pergunta: depois você continuou dando aulas em Tatuí?
Fransisco Araújo: houve alguns problemas pois foram 6 meses nessa viagem para a Espanha. Não queriam me dar um licença e eu queria ir. Não era turismo, era uma viagem para aprimoramento musical. Eu não estava abandonando o emprego, nem queria isso, mas quando voltei da Espanha, reassumi minha cadeira no Conservatório.
Na época, o país passava problemas políticos com a ditadura militar; que já estava no final; a inflação era muito grande, o salário começou a achatar e eu estava quase pagando para ir trabalhar. Eu também tinha que faltar às vezes, pois tinha apresentações para fazer e quando isso acontecia, o vermelho vinha no ponto. Tudo isso foi me aborrecendo e eu acabei pedindo demissão.
Pergunta: fale-nos sobre as suas gravações.
Fransisco Araújo: gravei discos em vinil. Houve um movimento do choro, em São Paulo, direcionado a um "renascimento do choro" e eu fiz parte desse movimento, gravando um disco que o Clube do Choro lançou. O Clube merece ser reverenciado. Não era um boteco, nem um bar onde se fazia choro, era uma entidade, uma instituição.
Começou promovendo o choro, não de forma idealista, mas de forma muito concreta, fazendo apresentações, com uma sede própria. Esse negócio de bar veio depois, sendo a fase negra do clube do choro. Exploraram de forma predatória. Quem é que não precisa ganhar? Mas tem que ser de uma forma honesta, que dê frutos e não de uma forma predatória. No clube, havia uma sociedade e uma carteirinha. O lançamento foi no Teatro Municipal de São Paulo. O primeiro chorão homenageado foi Armando Neves e foi feito um disco com composições dele. Participaram vários violonistas: Paulinho Nogueira, Aymoré, Rago, Jessé Silva, Paulinho da Viola, entre outros e eu fui chamado também para gravar uma faixa.
Pergunta: e o seu primeiro CD sozinho?
Fransisco Araújo: houve uma apresentação na UMES, em homenagem ao Canhoto da Paraíba. Fui dar uma canja. Após tocar, a platéia pediu bis e alguém da platéia gritou: "Como é que esse homem ainda não gravou?". Todo o público se surpreendeu e eu mais ainda! Respondi: "Vou gravar no ano que vem, fazendo negócio com quem quer que seja". Aí ouviu-se outra voz gritando: "Vai gravar sim, na minha gravadora!". Era o Marcus Vinicius, que após o show veio ao meu encontro. Ele era o diretor da Marcus Pereira e me deu seu telefone. Isso foi em dezembro de 1997 e realmente em 1998 eu comecei a gravação e saiu o meu primeiro CD, pelo selo CPC-UMES, chamado "de Sertões & Serestas", com a maioria das obras de minha autoria.
Pergunta: e o segundo CD?
Fransisco Araújo: foi o CD "Deitando e Rolando" (também pelo selo CPC-UMES). Esse é o título de uma composição minha, que é a tradução de rock and roll. Neste segundo CD, fiz uma homenagem ao Dilermando Reis. Claro que não toquei as músicas que marcaram o Dilermando, como "Magoado", "Se ela perguntar", "Noite de Lua". A personalidade do Dilermando é tão forte, que ninguém vai superar e se conseguir se igualar, já faz muito!
Gravei três obras do Dilermando: o choro "Caxinguelê", que ele havia gravado com a orquestra do Radamés Gnatalli e eu toco num só violão com arranjo meu e do Jair de Paula. Gravei também uma música dedicada ao Barrios, chamada "Mexicanita", uma polca paraguaia, de execução extremamente difícil. Gravei também "Uma Noite em Haifa", uma dança oriental, gravada num disco de vinil, na década de 60.
A música "Mexicanita", tirei de uma fita que o próprio Dilermando gravou na casa dele. Nessa fita, ele tinha gravado também "Capricho Árabe" (Tárrega) e, por incrível que pareça, a "Chaconne" (Bach), tocada em cordas de aço! Não havia partitura da peça "Mexicanita". Tive que tirar de ouvido mesmo! E as outras músicas são todas de minha autoria.
Pergunta: as suas composições estão escritas?
Fransisco Araújo: Tenho mais de 300 composições, todas escritas. Estão editados os "Prelúdios Apoteóticos", um choro chamado "Devaneios", pela Vitale. A "Valsa Virtuosa", o "Ponteado" e a "Rapsódia sobre um tema de Humberto Teixeira", estão editados nos Estado Unidos, pela Columbia Music.
Pergunta: que conselhos você daria aos internautas do Clube Di Giorgio, alunos, violonistas amadores ou não?
Fransisco Araújo: viver de música instrumental no Brasil é difícil e complexo. O violão brasileiro tem uma história muito grande no conteúdo, embora pequena em tempo. O violão construiu uma história maior do que a Europa nos seus quase oitocentos anos de história. Foi um instrumento atuante a partir do século XIX. Está estritamente ligado à música brasileira. Para viver no Brasil, você tem que ter versatilidade, abertura e não ser uma pessoa radical. Clássico, popular, hoje você tem que pensar em ser versátil para sobreviver do violão no Brasil. Esse é o primeiro passo. O segundo é o trabalho. Talento e trabalho são duas coisas inerentes: uma coisa não pode existir sem a outra. Se você tiver talento e não tiver trabalho, não vai adiantar nada, e se você tiver trabalho, mas não tiver talento, também não adianta. Outra coisa é em relação ao instrumento. Há aqueles que ainda são puristas. Não é o nosso caso, não pensamos assim e respeitamos quem pensa assim, mas hoje o violão mudou, a construção do violão mudou, o público, a poluição sonora é outra. Temos que saber tocar com o violão "plugado", elétrico e acústico. Tem que saber a hora da escolha e que os tempos mudaram e se adaptar se quiser sobreviver. O violonista deve saber e tocar de tudo, e não se limitar a um único estilo, ou qualquer escola. Respeite o trabalho de todo o mundo. Hoje, o violão vive de tendências. Quem quiser fazer um único estilo, vai ficar fazendo em um público localizado e eu sou da opinião do grande poeta Fernando Brant: "O artista tem de ir aonde o público está". Com qualidade, é claro.
Francisco Araújo atende pelo telefone: 6973-6448, aos que estão interessados em suas apresentações, palestras e aulas.