Cláudio FontanaPergunta: onde você nasceu?
Claudio Fontana: nasci em São Luís do Maranhão, em 14 de junho de 1945.
Pergunta: quando surgiu o gosto pela música?
Claudio Fontana: desde pequeno, sempre gostei de cantar. Freqüentei programas de auditório das rádios de São Luís do Maranhão, Rádio Difusora, Rádio Gurupi, Rádio Timbira. Depois de ganhar alguns concursos para cantor, passei a cantar no grupo "Nonato e seu conjunto".
Pergunta: e o interesse pelo violão?
Claudio Fontana: Turíbio Alencar morava na mesma rua que eu e ele era um violonista muito bom. Nos tornamos amigos. O pai dele tocava muito bem também. Eles gostavam de violão clássico e eu gostava de bossa-nova. Daí fiz a cabeça do Turíbio para começar a ouvir Baden Powell e outros grandes músicos da época. Turíbio me acompanhava enquanto eu cantava. Então resolvi ir aprendendo com ele um pouco de violão. Foi aí que entrou o Di Giorgio na minha vida. Foi o meu primeiro grande amor. Meu sonho era ter um violão Di Giorgio e tocar como o Turíbio Alencar. Assim comprei o meu Di Giorgio e comecei.
Pergunta: você aprendeu solo ou acompanhamento?
Claudio Fontana: comecei aprendendo acompanhamento dentro da posição tecnicamente correta. Porém não eram aulas formais. Fui aprendendo quando nos encontrávamos, meio na base do "olhometro".
Pergunta: e o seu lado compositor?
Claudio Fontana: o espírito de compor uma canção sempre fluiu em mim, assim como ser um repórter musical de alguma coisa.
Pergunta: e qual foi a sua primeira composição?
Claudio Fontana: aos 16 ou 17 anos. Havia na época a música "Garota de Ipanema" (Jobim/Vinícius). Em São Luís do Maranhão havia a Rua Grande, onde as meninas passavam vindo do Colégio Borba Castro. Enquanto elas desciam a rua os rapazes ficavam paquerando. Assim, fiz a minha primeira música com os primeiros acordes que sabia no violão. Seu nome é "Brotinho Rua Grande":
"Brotinho Rua Grande, vida boa/desce sempre a S. Lisboa/ só pra poder desfilar/ brotinho te conheço, és bonitinha/ mas ainda é tolinha e só pensa em amar". Era uma bossa-nova bem simples, mas que marcou muito a cidade porque eu era o primeiro jovem cantor que se atirava para fazer uma canção falando da terra.
Pergunta: essa música te motivou a continuar?
Claudio Fontana: sim, fiquei incentivado com o primeiro sucesso. Depois da "Brotinho Rua Grande", foram nascendo outras canções.
Parece que se a gente tivesse um Di Giorgio, tocavamos mais. Mesmo fazendo como eu digo: "Do maior e esquina"; fazia esses acordes e um pouquinho de acordes dissonantes que o Turíbio me ensinava.
Pergunta: como foi sua vinda para São Paulo e Rio?
Claudio Fontana: no final de 1964, fui ao Rio de Janeiro, mostrar minhas músicas nas gravadoras. Apareceu então o Osmar Navarro, compositor popular e autor de "Quem é?". Ele me ouviu e disse: "Olha menino, você tem uma veia de compositor muito boa, mas esqueça esse negócio de fazer música de protesto". Em 64 havia aquele negócio de revolução, ditadura. "Se você quiser fazer sucesso popular, procure fazer outras canções". E eu, com o que sabia de violão e ainda com o meu Di Giorgio, comecei a fazer melodias mais românticas.
Pergunta: qual foi a primeira composição sua gravada por um cantor?
Claudio Fontana: foram duas músicas que fiz para o Wanderley Cardoso: "Doce de Coco" e "Não posso controlar meu pensamento". Ambos os sucessos fiz no meu Di Giorgio. Foi uma alegria muito grande, pois as portas continuaram se abrindo para mim depois disso.
Pergunta: e qual foi o seu primeiro sucesso como cantor?
Claudio Fontana: a música "Adeus Ingrata", que gravei pela Copacabana, onde fui levado pelo empresário Genival Melo. Ganhei o troféu "Chico Viola", o "Disco de Ouro", pelos mais de cem mil discos vendidos, e na época da TV Record de São Paulo, recebi o prêmio das mãos de Kalil Filho.
Pergunta: E você compôs para outros cantores?
Claudio Fontana: sim, para Julio Iglesias: "Meu amor é mais jovem que eu", Nelson Ned, "Parabéns, parabéns querida", Ângela Maria: "Prisioneira", Jair Rodrigues, Raimundo José, Os Originais do Samba, canções infantis para Eliana: "Olha o Passarinho", "Come pra mamãe ficar contente”, Chitãozinho&Xororó, o bispo Marcelo Trivela, entre outros. Os palhaços Atchim e Espirro têm uma carreira pautada em canções que foram de minha autoria, como a canção do King Kong,
Pergunta: e qual foi o seu maior sucesso?
Claudio Fontana: sem dúvida foi "O Homem de Nazareth", gravada por Antônio Marcos, em 1973. Com ela alcancei o auge da minha carreira como compositor. Foram mais de 5 milhões, entre CDs e LPs vendidos, mais de 40 regravações diferenciadas por conjuntos, orquestras e foi gravada também em cinco idiomas. Com humildade posso dizer que esta canção me trouxe todas as alegrias que um compositor gostaria de ter.
Pergunta: como foi o momento de inspiração para compor "O Homem de Nazareth"?
Claudio Fontana: eu estudei no colégio marista. Morava em São Luís do Maranhão, perto da Igreja de Santo Antônio. Sempre tive uma forte formação cristã e quando cheguei em São Paulo o Roberto Carlos tinha lançado a música "Jesus Cristo". Eu também quis fazer uma canção com esse cunho religioso, mas que não falasse o nome "Cristo" nem "Jesus".
Nas minhas adorações pedi para que Deus me desse inspiração. Um dia no carro me veio o refrão na cabeça: "Ei, irmão/vamos seguir com fé/tudo que ensinou/ o Homem de Nazareth". Era o tema, era por aí o caminho.
Corri para casa, peguei o meu Di Giorgio e sentei ao lado do gravador e a música fluiu naturalmente e logo ficou pronta. Era um domingo. Na segunda-feira liguei para o Antônio Marcos e pelo telefone cantei o refrão para ele. Imediatamente ele se entusiasmou e a incluiu no seu LP
que estava prestes a ser gravado. O produtor da gravação era o Wilson Miranda e foi gravada por Antônio Marcos sendo um grande sucesso.
Pergunta: como você se analisa como compositor?
Claudio Fontana: acho que sou simples na maneira de fazer canções. Não tenho uma cultura musical muito grande e apurada a ponto de compor com acordes diferenciados. Sempre usei o violão para criar e me acompanhar cantando, mas sempre fui muito eclético e fazia canções românticas, infantis, religiosas e sambas.
Pergunta: e a família Chocolate?
Claudio Fontana: durante 15 anos, de 1985 ao ano 2000, Cláudio Fontana se anulou e passei a fazer parte do grupo Chocolate. Minha família: eu, minha mulher Malu, meu filho Claudinho e minha filha Marcele era uma família que cantava unida. Minha idéia era mostrar que em família a gente podia ser alegre e cantar juntos. Daí surgiram muitas canções infantis como "A Canção do Cometa Halley", "Superman", que serviu como tema num Dia da Criança, no programa Silvio Santos, levando mais de um milhão de pessoas na avenida 23 de Maio, em São Paulo. Cantamos também no Chacrinha, na Xuxa e pelo Brasil inteiro. Fiz também a música para o "Batman", "Tartarugas Ninja", entre outras.
Pergunta: e sua participação na Rede Vida de TV?
Claudio Fontana: foi de 1995 até o ano 2000. Tínhamos o programa Cláudio Fontana e sua família, todos os domingos às 21h e ajudamos a implantar a Rede Vida no Brasil. Recebíamos cantores que eram meus colegas da época da Jovem Guarda e também pessoas que cantavam mensagens de fé, amor, esperança e principalmente respeito a família.
Pergunta: e a família Chocolate gravou quantos CDs?
Claudio Fontana: gravamos 3 LPs para a RCA Victor, depois na gravadora Paulina, onde gravamos mais 2 LPs e um CD.
Pergunta: qual a sua canção mais recente?
Claudio Fontana: chama-se "O Médico dos Médicos". Tem muito haver com o "Homem de Nazareth", porque sofri um acidente e fui parar no hospital e lá dentro tive a inspiração para esta música.
Pergunta: quem a gravou?
Claudio Fontana: o padre carismático Juarez de Castro. Essa mensagem ele interpreta para as pessoas que precisam de fé, esperança e força. Eu sempre digo que a música é o elo de ligação entre Deus e o ser humano. Há também a canção "Viva São Paulo", feita para comemorar os 450 anos de São Paulo.
Pergunta: o que você conquistou nestes anos de tanta dedicação para música?
Claudio Fontana: estou em São Paulo há 35 anos, cheguei aqui com duas calças, duas camisas e hoje moro numa casa muito boa no bairro do Brooklin, comprada com o dinheiro que ganhei com a canção "O Homem de Nazareth", que Deus me deu inspiração e fiz com o meu violão Di Giorgio.
Moro há 30 anos nesta casa. Vim do Nordeste, fiz a minha vida aqui em São Paulo e por que não agradecer a essa cidade agora com uma música? Foi o que fiz. Estão comigo o Zé Vasconcelos, o Zé Bonitinho, esses dois grandes humoristas, o Ângelo Máximo, Almir Rogério, Nilton César, Demétrius, todos meus colegas.
Pergunta: Que conselho você daria aos nossos sócios, internautas e a todos estudantes de violão?
Claudio Fontana: bem, o meu primeiro grande amor foi um Di Giorgio. Tratávamos o violão como uma namoradinha devido ao zelo. Ter adquirido o violão, naquela época e em São Luís do Maranhão, foi um fato maravilhoso para nós. Então eu digo a você que é estudante e quer ter uma ascensão artística cantando, compondo ou tocando: tenha sempre ao lado o seu violão. Mesmo sem ser um exímio violonista, estou sempre com o meu violão "acarinhando", buscando uma nota, um acorde para compor, iniciar uma nova canção. Foi assim que consegui ter nestes 35 anos de carreira mais de 400 canções gravadas. Eu sobrevivo dos direitos autorais. Não tenho nenhum centavo na minha vida que não tenha vindo de uma música, de um show. Gostaria de lembrar que sou inscrito na AFFIM, sociedade arrecadadora de direitos autorais, que foi fundada pela Elis Regina e que hoje tem como presidente, nosso querido pianista e músico, Adilson Godoy. É uma sociedade que tem um amor e um, respeito muito grande pelo compositor brasileiro.