Entrevistas
Quarteto Novo

Formado em 1966, este grupo instrumental paulistano foi criado originalmente com o nome de Trio Novo, composto pór Théo de Barros (contrabaixo e violão), Heraldo do Monte (viola e guitarra) e Airto Moreira (bateria). Mais tarde, com a adesão de Hermeto Pascoal, o trio passou a chamar-se Quarteto Novo, participando de diversos programas de TV paulistas, comandados por Geraldo Vandré, na TV Record e na Bandeirantes. Em 67, o grupo lançou um LP homônimo, pela Odeon, no qual realizava experimentalismos no gênero nordestino, com pitadas de jazz e bossa nova, rompendo com preconceitos vigentes com relação à música do Nordeste. Ainda no mesmo ano, o grupo acompanhou Edu Lobo em sua “Ponteio”, que tirou o primeiro lugar no III Festival da Canção. Dois anos depois de iniciado, o grupo se separou.

Leia abaixo alguns trechos de uma entrevista com o violeiro e guitarrista pernambucano Heraldo do Monte.

No disco do Quarteto Novo, qual era a tecnologia? Dois canais?
Só 2 canais! Tinha faixas que a gente mudava de instrumento. Tinha o piano que o Hermeto tocava, o técnico colocava um porção de feltro, uma coisa pra não fazer barulho durante a gravação, então ele parava de tocar piano, pegava a flauta e já tinha microfone no piano, depois ele colocava a flauta no feltro, no abafadorzinho. Eu trocava a guitarra pela viola, enquanto estava gravando. Não tinha playback na época, não tinha a possibilidade de você parar e dizer “depois eu boto essa viola”. Não. Você tinha que fazer o arranjo de maneira que tivesse um certo “buraco”, né, pra você trocar de instrumento. Então o Theo também trocava de violão pra baixo acústico em algumas músicas. Isso gravando.

Como foram os ensaios para o disco?
O disco foi lançado em 67 ... a gente já tinha ensaiado um ano. Eu sou ruim pra data, mas foi isso, a gente ensaiou um ano pra fazer o disco. Porque ensaiou um ano? Porque a gente não levava nada escrito, a gente não elaborava nada em casa, justamente pra ter a cara de todo mundo e não ter a cara de ninguém, a gente elaborava as coisas no ensaio. Era muito trabalhoso né, era que tal essa idéia, vamo desenvolver essa idéia, depois que você decora aquela idéia, aí alguém diz vamo partir pra essa, apaga tudo que foi feito.

Todo mundo tocando junto?
Não tinha playback, quem não tocasse não tocava mais, todo mundo ao vivo mesmo no estúdio. Só com aqueles separadores pra não haver vazamento do som do instrumento no microfone do outro. Todo mundo tocando, se errar vai do começo.

Quanto tempo demoraram na gravação?
Rapaz, sabe que eu não lembro? Não foi muito não...Se foi uma tarde, uma noite, se foi duas tardes... a gente tocava tudo nos shows, já tava tudo embaixo do dedo, tinha os improvisos, isso era gostoso no estúdio. Naquela época... é engraçado como você se condiciona. Na época em que você não tinha como fazer playback, você prestava atenção ao que você tava fazendo no estúdio. Ë uma coisa inconsciente, porque agora você pode querer prestar atenção, recuperar aquela atenção que você tinha quando não podia repetir mas você não consegue porque no fundo você sabe refazer. Ë uma coisa engraçada. A mesma coisa: você afinava muito bem o seu instrumento sem ter o afinador.Agora você afina, mas passa no afinador e vê que tem umas diferençazinhas. Coisa da tecnologia vai deixando a gente preguiçoso mas não de forma consciente, é lá nas profundezas da gente.


Quem foi que produziu o disco do Quarteto ?
A gente mesmo. Já tava tudo arranjado né. Tem um negócio engraçado, o Vandré quis participar na marra de uma das faixas. O disco foi gravado no Rio. A gente morava em SP na época, o Vandré, etc. A EMI pediu que a gente fosse gravar no Rio, pelo estúdio, num sei q. O Vandré queria de todo jeito participar do disco, um disco instrumental. E ninguém aceitou, mas o Hermeto falou “Olhe, na minha música, 'O Ovo', você pode fazer RARRAI!” aí pronto, foi a única participação dele no disco.

Teve mais alguma coisa diferente na produção, algum cuidado especial pra captar um timbre, sei lá?
Era tudo muito natural. A única coisa especial foi pedir pro Vandré fazer “Rarrai”, mas não teve nada de trabalhoso. Nada disso não, foi um pouco dá dois e manda ver. Do jeito que tá, tá. É a tal história, quando você não tem recursos parece que dá tudo certo, né? Quando você tem, dá tudo errado.

Vocês faziam shows mesmo como Quarteto Novo separados de Vandré?
Fazíamos. O Trio Novo, antes do Hermeto, era uma coisa mais encomendada, o Vandré cantava umas coisas meio sertanejo, no sentido do sudeste, e a gente acompanhava, uma coisa mais profissional. E aí a gente aproveitou esse tempo pra criar a coisa mais artística que a gente queria fazer, que era o Quarteto Novo.

Vocês aproveitaram canções de Geraldo Vandré. “Fica mal com Deus”... havia outra dele?
Só olhando no disco. Houve uma certa divisão amigável das composições. Acho que era “O Ovo” que é só do Hermeto e ficou sendo dele. Sei lá, foi um negócio meio... o fato de você estar lá como co-compositor da música não significa que você realmente é. Foi um negócio feito após, tipo “Quer essa? Quer entrar nessa?”

A banda foi formada intencionalmente pra acompanhar Geraldo Vandré ou isso veio depois?
Ela foi resultado profissional de uma turnê que a gente fez pra Rhodia na qual o Geraldo Vandré era o cantor e compositor, era uma turne de moda, de desfiles, a gente correu o Brasil, uma produção de Livio Ragan que queria o Vandré e uma coisa bem regionalista brasileira. Pediu ao Vandré pra pegar as pessoas, chamou o Airto, o Hermeto não começou, não fez essa viagem. Aí depois que nós nos reunimos, a gente começou a ter umas idéias extra-Vandré, de criar uma linguagem de improvisação brasileira, que não existia na época, novos timbres, tipo violonista de viola com flauta que hoje em dia é super usado, mas que era um premiere, uma novidade na música brasileira. E outras coisas também, o tipo de percussão também era novidade, caveira de burro esse tipo de coisa, a gente aproveitou a coisa profissional pra ir elaborando o caminho que a ia tomar.

Fonte: http://naoserestrinja.blogspot.com/2007/11/quarteto-novo.html
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